quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O tempo presente de James Carter

Lançado em 2008 pela gravadora Emarcy, o álbum Present Tense é obra do multi-instrumentista James Carter, responsável por tocar os saxofones soprano, tenor e barítono, além de flauta e clarinete baixo. Assim como procura diferentes sonoridades nos instrumentos que toca, Carter explora diferentes facetas do jazz, tais como o cool, o hard bop, a bossa e outros. O jazz do século XXI tem em Carter uma figura de destaque e um artista de alto nível.

O álbum inicia com “Rapid Shave”, um hard bop com mudanças de andamento que principia com um ritmo acelerado puxado pelo baterista Victor Lewis e pelo baixista James Genus. O trompetista Dwight Adams injeta bastante energia à melodia e é também quem determina o motivo da canção. O pianista D.D. Jackson dá seguimento e mantém o ritmo acelerado, enquanto prepara o caminho para o sax barítono de James Carter, que primeiramente diminui a velocidade da canção para depois ingressar em uma nova aceleração tendo a seção rítmica como parceira nesse intento. O solo de baixo de Genus desacelera a canção mais uma vez, mas não por muito tempo, pois Lewis prenuncia o encerramento com todos os instrumentos tocando com muita energia.

Em “Bro. Dolphy”, composição de Carter em homenagem a Eric Dolphy, temos uma canção com dois momentos distintos após uma breve introdução. Primeiro ouve-se um cool jazz com belos solos de clarinete baixo de Carter, que por vezes ganha o acompanhamento do trompete de Adams, além de um dedilhado elegante de Jackson ao piano. Depois, a partir de uma ruptura marcada nos pratos da bateria de Lewis, a canção se transforma em um avant-garde com direito a improvisações livres que abruptamente dão fim à faixa.

O sax soprano de Carter em “Pour Que Ma Vie Demeure”, composição de Django Reinhardt, dá um clima romântico à canção, enquanto o baixo de Genus e a bateria de Lewis perpetuam um ar nostálgico.

“Sussa Nita” tem um ritmo bem balanceado que é desenvolvido por meio do baixo de Genus, da bateria de Lewis, da guitarra de Rodney Jones e da percussão de Eli Fountain. Com esse fundo, Carter pode solar com liberdade em seu sax tenor. O resultado é uma canção com ritmo cadenciado com direito a bons solos de guitarra, sax e piano.

“Song of Delilah” tem uma longa introdução, na qual o sax soprano de Carter toca uma melodia com clara influência oriental. Depois disso, a canção se assenta em um ritmo constante e bem marcado que possibilita um belo dueto entre o sax tenor de Carter e o trompete de Adams.

Em “Dodo’s Bounce”, a seção rítmica com a bateria de Lewis, o baixo de Genus e a guitarra de Jones trabalha para que a flauta de Carter e o trompete de Adams possam desenvolver o tema recorrente da melodia. Nesse ínterim ainda há espaço para os solos de bateria e guitarra, que se integram aos sopros.

“Shadowy Sands” é uma agradável canção que embala o ouvinte com seu ritmo lento e constante, que é acrescido em malemolência e qualidade pela percussão de Fountain. Carter encontra o caminho perfeito para solar docemente com seu clarinete baixo em uma execução sem surpresas e linear, que é seguida pelo trompete de Adams. O dueto final entre os sopros é muito bonito por explorar muito bem a diferença entre os timbres dos instrumentos nos mesmos fraseado.
O ritmo acelera bastante em “Hymn of the Orient”, canção cuja execução de Lewis, Genus e Jackson proporciona duetos e solos cheios de vivacidade por parte do trompete de Adams e do sax barítono de Carter.

Como o título não faz questão alguma de esconder, “Bossa J.C.” é uma canção ao estilo jazzy bossa nova composta por Carter. A guitarra de Jones e a percussão de Fountain dão ao trio Lewis, Genus e Jackson o tom ideal para soar similar a Jobim, a clara influência para o compositor. Os solos de sax tenor de Carter e de trompete de Adams são um tanto conservadores e permanecem recorrentes ao tema da melodia.

O trompete com surdina e o sax barítono dão um lindo contraste ao dueto inicial de “Tenderly”, a canção que encerra o álbum. O clima cool jazz é imperativo nesta faixa, na qual a seção rítmica limita-se a fazer o acompanhamento para que Carter e Adams definam os rumos da melodia.

Tocando cinco instrumentos em Present Tense, James Carter concebeu um ótimo álbum que transita por diferentes estilos do jazz. Ao longo de sua carreira, Carter lançou vários CDs, um diferente do outro, até esse que retoma, de certo modo, a sonoridade que o fez figurar como uma das maiores promessas do jazz no início da década de 1990. Sua habilidade e destreza como multi-instrumentista faz de James Carter uma importante figura para a música atual e uma realidade que abrilhanta o jazz do século XXI.

Todos os músicos que participaram do álbum:
James Carter: sax soprano, sax tenor, sax barítono, flauta e clarinete baixo;
Dwight Adams: trompete e flugelhorn;
D.D. Jackson: piano;
James Genus: baixo;
Victor Lewis: bateria;
Rodney Jones: guitarra (4, 6 e 9);
Eli Fountain: congas e percussão (4, 7 e 9).

Faixas de Present Tense:
01. Rapid Shave [Burns] 7:31
02. Bro. Dolphy [Carter] 7:15
03. Pour Que Ma Vie Demeure [Reinhardt] 5:08
04. Sussa Nita [Carter] 6:05
05. Song of Delilah [Evans, Livingston, Young] 5:12
06. Dodo's Bounce [Marmarosa] 6:05
07. Shadowy Sands [Jones] 8:31
08. Hymn of the Orient [Gryce] 4:26
09. Bossa J.C. [Carter] 4:45
10. Tenderly [Gross, Lawrence] 8:18

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Veja este vídeo com a música “Pour Que Ma Vie Demeure”:

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

One For All quer saber o que está acontecendo

Lançado em 2007 pela gravadora japonesa Venus, o álbum What’s Going On? do grupo One For All reúne seis grandes instrumentistas do jazz atual, tendo no saxofonista Eric Alexander a figura de maior destaque. Jim Rotondi e Steve Davis, trompete e trombone, respectivamente completam a linha de frente dos instrumentos de sopro, enquanto David Hazeltine, Joe Farnsworth e John Webber formam a seção rítmica. Desenvolvido de maneira paralela às carreiras dos seis músicos, o grupo encontrou neste álbum uma maneira de se expressar jazzisticamente através de composições da soul e da black music. O resultado é um CD de muita qualidade de transita pelo swing e pelo hard bop.

A faixa de abertura, “What’s Going On?”, que também dá nome ao álbum, começa em ritmo forte e acelerado capitaneado pelo baixo de John Webber, pela bateria de Joe Farnsworth e pelo piano de David Hazeltine. A inclusão do trompete de Jim Rotondi, do sax tenor de Eric Alexander e do trombone de Steve Davis dá bastante balanço à canção. Apesar de ser um sexteto, o grupo quase soa como uma big band, pois os três instrumentos de sopro tocam muito bem alinhado permitindo ao solista uma forte sustentação sonora que ainda tem o apoio de uma seção rítmica exemplar.

“How Sweet It Is (To Be Loved By You)” é uma canção cheia de swing. De início o solo de sax tenor de Alexander sustentado por Davis e Hazeltine dá a direção musical, que é seguida no solo de trombone de Davis e prossegue, posteriormente, no solo de trompete de Rotondi. Hazeltine que vinha fazendo o acompanhamento assume a condução melódica até os sopros, encabeçados por Alexander, retomarem a frente em execuções cheias de balanço. Estruturalmente a canção é simples, mas seu swing é envolvente. O difícil é não se deixar levar pelo ritmo e pela melodia.

O ritmo acelerado puxado pela bateria de Farnsworth e pelo baixo de Webber em “Let’s Stay Together” dá a direção aos demais instrumentos. Alexander sola com bastante liberdade nessa faixa, bem como Rotondi que toca suas notas com bastante rapidez. Nesta versão hard bop, todo o grupo mostra muita coesão, mas o destaque maior ainda é para o saxofonista responsável pelo motivo da canção.

“Reasons” tem um quê de bossa, principalmente em função do ritmo malemolente produzido por Farnsworth e Webber. A batida constante é a sustentação para o desenvolvimento dos solos de Alexander, Rotondi, Davis e Hazeltine. Quando todos os instrumentos estão tocando juntos, novamente cabe ao saxofonista a condução da melodia. O sexteto consegue encontrar a medida perfeita entre a bossa e a balada para realizar uma canção com um swing muito agradável. Apenas siga no embalo.

“Golden Lady” explora muito bem os recursos do sexteto, uma vez que os instrumentos de sopro progridem em conjunto e trocam os papéis de condutor da melodia e de acompanhamento com bastante desenvoltura. Ao assumir a frente melódica com seu piano, Hazeltine dá início à sessão de solos, que prossegue com o trompete de Rotondi e o sax tenor de Alexander. Quando todos voltam a tocar juntos o que se tem é uma deliciosa jam session cheia de balanço, que mesmo com o atravessamento de Davis no final não é afetada.

A marcação rítmica do baixo de Webber e da bateria de Farnsworth em “For the Love of You” dão ao piano de Hazeltine o espaço para trilhar uma linha melódica cheia de swing, que é enriquecida pelos sopros. Mais uma vez o destaque é a integração do grupo, no qual cada solista tem a certeza de que a melodia terá um seguimento coerente, enquanto a seção rítmica dá a sustentação ao trabalho do sexteto, principalmente pela precisão e competência de Farnsworth.

“Stop! In the Name of Love” tem um cadenciamento mais pop com clara influência da black music, que dá ao trompete de Rotondi e ao trombone de Davis o destaque maior. Claramente a melodia cresce quando há a participação dos dois músicos citados, porque ambos são responsáveis pelo refrão em uma canção naqual a marcação estrofe e refrão é bem evidente. Embora não tenha sido composta como um jazz, a versão do One For All funciona e empolga.

“Moon Blue” tem um tema principal conduzido pelo trio Rotondi, Alexander e Davis, que intercalado pelos solos ora swingado de Alexander, ora enérgico de Rotondi, ora cheio de balanço de Davis, ora acelerado de Hazeltine, sempre volta para estabelecer os elos entre as diferentes partes da canção. Ao fundo Farnsworth e Webber estão a estabelecer a medida exata de onde cada solista pode ir. Com essa seção rítmica, certamente, eles podem ir em segurança.

A nona e última canção do álbum, “Betcha By Golly, Wow”, tem uma levada característica da Swing Era e dá oportunidade a todos os músicos para desenvolver as suas sonoridades em solos ou duetos. A melodia simples é de fácil acompanhamento pelo ouvinte e, talvez, esse seja um de seus trunfos.

A coesão entre os músicos do One For All é a principal razão para o grupo soar tão bem. Ainda que a fama maior recaia no saxofonista Eric Alexander, que é com razão um dos principais nomes do sax tenor atual, Joe Farnsworth e Jim Rotondi também são a alma desse sexteto. Ainda assim, como não valorizar o excelente trabalho de David Hazeltine, John Webber e Steve Davis? Ao reunir tantos nomes importante do jazz do século XXI, o One For All é uma seleção de ótimos instrumentistas, que levam em paralelo bem-sucedidas carreiras como líderes e sidemen. What’s Going On? é altamente recomendável para quem deseja ouvir músicos de primeira qualidade em um trabalho com cara de reunião de amigos.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Eric Alexander: saxofone tenor
Jim Rotondi: trompete
Steve Davis: trombone
David Hazeltine: piano
John Webber: baixo
Joe Farnsworth: bateria

Faixas de What’s Going On?:
01. What's Going On? [Benson, Cleveland, Gaye] 6:50
02. How Sweet It Is (To Be Loved by You) [Dozier, Holland] 5:23
03. Let's Stay Together [Green] 8:06
04. Reasons [Bailey, White] 6:53
05. Golden Lady [Wonder] 5:51
06. For the Love of You [Isley] 6:24
07. Stop! In the Name of Love [Dozier, Holland] 5:31
08. Moon Blue [Wonder] 4:59
09. Betcha by Golly, Wow [Bell, Creed] 7:42

Ouça um pouco do álbum no site da gravadora Venus.

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sábado, 3 de janeiro de 2009

As pequenas coisas de Ben Allison correm o mundo

Lançado em janeiro de 2008 pela gravadora Palmetto, o álbum Litte Things Run the World do baixista Ben Allison é mais um ponto positivo na bem-sucedida carreira deste músico vanguardista. Cada solo escrito por Allison para os instrumentos de sopro ou cordas neste álbum não é óbvio, o que garante um grande destaque ao trompetista Ron Horton que é responsável por algumas das melhores passagens nas oito canções do CD. Sem Horton, Little Things Run the World perderia muito do seu brilho.

“Respiration”, a primeira faixa do álbum, traz um belo trabalho de entrosamento entre o baixo de Ben Allison, a guitarra de Steve Cardenas e a bateria de Michael Sarin, pois conseguem ditar a direção rítmica da canção e conferem uma sonoridade com um quê de espanhola à canção, enquanto o trompete de Ron Horton sola entre fraseados curtos até que as seis cordas de Cardenas assumam a frente da melodia. Destaque para o dueto final de trompete e guitarra.


Em “Little Things Run the World”, canção que dá nome ao álbum, Allison e Sarin tomam total controle do ritmo e do balanço, o que permite liberdade para os solos de Horton e Cardenas, que ainda ganham a companhia de Michael Blake no saxofone tenor. Nesse momento, a canção atinge um ápice no melhor estilo hard bop, no qual todos os instrumentos conseguem juntos construir uma unidade muito forte.

A sonoridade latina que abre “Four Folk Songs” prenuncia uma composição peculiar, cuja primeira parte privilegia a percussão e o trompete. Em seguida, é a guitarra quem conduz uma melodia suave, enquanto o trompete ensaia algo como um mantra, que se desfaz em um balanço agradável que nasce a partir de um crescendo do baixo, da bateria e do próprio trompete. Nesse momento é a guitarra que passa a conduzir a melodia até iniciar um novo dueto com o trompete, que termina intensa e bruscamente. As várias mudanças de andamento dessa canção são seus principais atrativos, dando a Allison um importante destaque como compositor e a Horton como intérprete.

Allison, Sarin e Cardenas dão a “Language of Love” uma deliciosa cadência de quem vai chegando aos poucos ao melhor estilo cool. Horton adiciona o seu trompete ao grupo e mntém o clima já desenvolvido. A sequência é uma deliciosa balada com um ar de mistério e ótimos solos de baixo e trompete. Interpreto os fraseados finais da guitarra de Cardenas e do trompete de Allison como os gracejos e galanteios dos amantes ao se conhecerem.

“Roll Credits” é uma ótima canção centrada parte nos olos suaves e expansivos de Horton no trompete, parte nos solos viajantes de Cardenas. A sustentação, porém, está no bom entrosamento do baixo de Allison e da bateria de Sarin que dão um gostoso balanço à canção. Alguém mais notará semelhança de alguns acordes com o standard “Speak Low” nesta faixa?

“Blowback” explora o contraste entre o ritmo forte e bem marcado pelo baixo de Allison e a bateria de Sarin com a melodia suave e viajante construída nos solos de guitarra de Cardenas, no trompete de Horton e no saxofone soprano de Blake. O resultado é um som que segue em progressão incorporando cada instrumento em uma unidade harmônica, na qual fica muito claro todo o processo de criação (início), a soma dos elementos constituídos pela seção rítmica e pela base melódica em um arranjo uniforme (meio) e a fragmentação que muda o andamento da canção e prepara o seu fim.

A versão com grande influência blueseira de “Jealous Guy”, composta por John Lennon, explora muito bem o dueto entre o baixo de Allison e o trompete de Horton. É curioso que nesta faixa do álbum, que não é de autoria de Allison, ele tenha mais liberdade para solar.

Na última faixa do álbum, “Man Size Safe”, o baixo de Allison destaca-se ao marcar quase hipnoticamente o ritmo, do início ao fim da canção, usando a mesma base. Enquanto isso, cada um a seu turno, os instrumentos responsáveis por conduzir a melodia travam empolgantes duetos com o baixo. Após os duetos de Allison e Horton, Allison e Cardenas, e Allison e Blake, ainda há lugar para o solo de Sarin, que religa o fim com o início da canção.

Com este álbum, Ben Allison prova mais uma vez porque é um músico de destaque na atual cena jazzística de Nova York, afinal suas composições são empolgantes, fogem da obviedade e acrescentam um importante valor artístico ao jazz do século XXI.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Ben Allison: baixo, violão;
Ron Horton: trompete, flugelhorn;
Steve Cardenas: guitarra;
Michael Sarin: bateria;
Michael Blake: saxofone tenor (2, 8), saxofone soprano (6).

Faixas de Little Things Run the World:
01. Respiration [Allison] 5:55
02. Little Things Run the World [Allison] 5:35
03. Four Folk Songs [Allison] 5:42
04. Language of Love [Cardenas] 8:22
05. Roll Credits [Allison] 6:09
06. Blowback [Allison] 7: 13
07. Jealous Guy [Lennon] 7:20
08. Man Size Safe [Allison] 7:00

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Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Respiration”:




Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Four Folk Songs”:




Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Language of Love”:

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O piano em turbilhão de Matthew Shipp

Lançado em 2007 pela gravadora Thirsty Ear, Piano Vortex marca 20 anos da primeira gravação do pianista Matthew Shipp como líder. Se anteriormente o uso de efeitos eletrônicos vinha sendo corriqueiro em suas gravações, neste álbum Shipp deixa com que apenas o piano, o baixo e a bateria sejam responsáveis pela sonoridade do grupo. Acompanhado pelo baterista Whit Dickey e pelo baixista Joe Morris (mais conhecido como guitarrista), Shipp apresenta oito composições originais de um jazz vanguardista e desafiador. Para saber alguns dos rumos do jazz neste século XXI é bom manter um olho e dois ouvidos em Matthew Shipp.

A faixa-título, “Piano Vortex”, que abre o álbum, começa com um denso dedilhar de Matthew Shipp acompanhado pelo baixo bem marcado de Joe Morris, que confere bastante sobriedade ao trabalho. A melodia não é nem um pouco linear, uma vez que o piano experimenta diversos tons na construção do som e por vezes, logo após encontrar uma nota mais simples e melodiosa, esta é abandonada por algo mais elaborado. Whit Dickey na bateria e Morris limitam-se ao acompanhamento e por isso mesmo contribuem decisivamente para a identidade densa da canção.

“Key Swing” é a faixa mais acessível do álbum. Tudo parece muito simples nesta canção e talvez esse seja o motivo de tudo funcionar tão bem. O ritmo ditado por Morris e Dickey é fácil de acompanhar, bem como a melodia cheia de balanço puxada por Shipp. Ainda que essa canção seja curta, a melodia pode ficar muito tempo tocando dentro da sua cabeça.

A introdução de Morris usando um arco no baixo em “The New Circumstance” nos prepara para mais uma canção densa, na qual Shipp faz uso de uma técnica lenta e cheia de lacunas, que vai acelerando aos poucos até ganhar forma e dominar por completo a sonoridade do trio. Com precisão Dickey acompanha o piano, reforçando o peso da melodia.

“Nooks and Corners” usa intrincadas notas extraídas do piano de Shipp em um swing frenético que encontra o bop e ocasiona um peculiar andamento à canção.

Em “Sliding Through Space” cada instrumento vai se mostrando aos poucos, como quem quer ganhar o seu espaço e construir uma história. O baixo com arco de Morris e a bateria de Dickey surgem em par ditando um ritmo complexo e, mais uma vez denso. O piano de Shipp, que, inicialmente, parece contribuir para uma desarmonia, depois assume o papel de conduzir uma melodia intensa que contrasta com o ritmo crescente e quase sombrio de Morris e Dickey. Essa é uma ótima amostra de jazz de vanguarda, que poderia muito bem ilustrar uma cena de crescente suspense em algum filme hollywoodiano.

“Quivering with Speed” traz um ritmo acelerado puxado por Dickey e Morris, enquanto Shipp conduz a melodia de modo igualmente rápido, construindo uma peça de difícil acesso que precisa ser ouvida várias vezes para que o papel de cada instrumento seja bem compreendido no contexto da canção. A complexidade e a técnica de Shipp nesta faixa são desafios para o ouvinte.

“Slips Through the Fingers” é uma peça de piano solo, na qual Shipp explora os registros mais baixos de seu instrumento. Esta é uma faixa bem intimista que se revela lentamente a cada nova audição.

A última canção, “To Vitalize”, adiciona swing ao trabalho do trio, uma vez que Dickey e Morris ditam o ritmo cheio de balanço, sobre o qual Shipp constrói a melodia. O resultado é um piano que avança além do swingar e procura outras linguagens para se expressar. Essa é a faixa do álbum em que Shipp mais se aproxima de uma de suas principais influências: Thelonious Monk. Por vezes tocando repetidamente a mesma nota, deixando lacunas ou acelerando a melodia, o pianista demonstra muita técnica e uma ótima capacidade de improvisação, bem como uma integração muito afinada com a seção rítmica, como fica claro no solo final de Morris, no qual piano e baixo conseguem uma ótima integração e se tornam instrumentos complementares e contínuos.


Neste álbum, Matthew Shipp abriu mão de recursos eletrônicos para gravar no conhecido esquema de trio piano-baixo-bateria apenas com composições próprias. Shipp, uma das lideranças do jazz atualmente, mostra com este trabalho a sua grande qualidade como intérprete e compositor em peças complexas com andamentos que desafiam os ouvintes. Piano Vortex é recomendado para quem já tem mais afinidade com o jazz de vanguarda e não espera melodias fáceis para cantarolar ou assoviar.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Matthew Shipp: piano;
Joe Morris: baixo (exceto faixa 07);
Whit Dickey: bateria (exceto faixa 07).

Faixas de Piano Vortex:
01. Piano Vortex [Shipp] 10:26
02. Key Swing [Shipp] 3:21
03. The New Circumstance [Shipp] 9:11
04. Nooks and Corners [Shipp] 4:10
05. Sliding Through Space [Shipp] 8:54
06. Quivering with Speed [Shipp] 6:38
07. Slips Through the Fingers [Shipp] 3:17
08. To Vitalize [Shipp] 7:13

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domingo, 26 de outubro de 2008

As vibrações orgânicas de Joey DeFrancesco

O órgão Hammond B3 tocado por Joey DeFrancesco no álbum Organic Vibes, lançado em 2006 pela Concord Jazz, pertenceu ao lendário Jimmy Smith, um dos mentores do líder deste grupo. A idéia de DeFrancesco neste álbum era expandir a sonoridade conjunta do órgão e do vibrafone, por isso o álbum recebeu o título que tem. De acordo com o organista, esse dueto nunca foi muito explorado, mas apresentou bons resultados, portanto essa seria uma boa oportunidade para trabalhar essa sonoridade. O vibrafonista escolhido para o álbum foi o veterano Bobby Hutcherson, que encontrou grande afinidade musical com DeFrancesco. Juntos realizaram um grande álbum e o objetivo do organista certamente foi alcançado.

A faixa inicial do álbum, “The Tackle”, começa com um ritmo swingado, que se desenvolve em uma batida mais bop, na qual destacam-se os solos de vibrafone de Bobby Hutcherson e do sax tenor de Ron Blake. Ao fundo, na condução rítmica está o baterista Byron Landham, o guitarrista Jake Langley e, por vezes, o organista Joey DeFrancesco, até que este direciona o seu Hammond B3 para o primeiro plano e nele executa um solo ágil cheio de balanço. O resultado de tudo isso é um hard bop de primeira qualidade.

Em “Little B’s Poem” a flauta de Blake soando contemplativa, o Hammond B3 de DeFrancesco quase frenético em alguns momentos e o vibrafone de Hutcherson estabelecendo uma ponte dão um refinamento à canção. A perfeita integração entre esses instrumentos é o que faz o sucesso da melodia que a todo momento se mantém bastante progressiva.

“I Thought About You” tem no belo dueto de DeFrancesco e Hutcherson o seu ponto alto. Enquanto Landham conduz o ritmo usando vassourinhas, à frente na condução melódica desta deliciosa balada estão o Hammond B3 e o vibrafone, que travam um diálogo de muita afinidade e transformam a sonoridade sentimental da canção em um casamento feliz entre os dois instrumentos.

“Somewhere in the Night” adiciona o sax tenor do veterano George Coleman ao trio original (DeFrancesco, Hutcherson e Landham), que enriquece o tema central da canção, que se desenvolve e é executado com muita propriedade nos duetos entre o Hammond B3 e o vibrafone. O curto solo de guitarra de Langley acrescenta ainda mais qualidade à melodia e através da ponte feita por DeFrancesco temos acesso a um agradável solo de Coleman, que devolve para o organista a função de conduzir, junto com Landham, a canção.

“Down the Hatch” tem um balanço muito gostoso na melodia, que é em grande parte responsabilidade do sax tenor de Coleman. Landham e DeFrancesco fazem o plano de fundo para que o sopro ganhe destaque inicialmente. Quando o Hammond B3 passa para o primeiro plano, o que se tem é uma demonstração de grande habilidade e um ótimo senso de swing por parte de DeFrancesco.

A versão hard bop de “Speak Low” é surpreendentemente boa. Quem espera uma versão lenta e intimista como de costume também é feita para esse standard também será surpreendido. O ritmo acelerado puxado por Landham é seguido com grande competência por Coleman, que junto a DeFrancesco mudam a cara da canção. Certamente este é um dos pontos altos do álbum, pois os músicos conseguiram fazer desta versão hard bop uma referência de como tocar “Speak Low”.

“Jeneane’s Dream” funciona muito bem com Hutcherson e DeFrancesco tocando a mesma nota em uma harmonia muito bonita que dá os ares iniciais dessa balada. Em seus solos, ambos mantém o alto nível em que a melodia vinha sendo conduzida e acrescentam suas interpretações ao tema central. O resultado é uma canção de fácil e agradável acompanhamento por parte do ouvinte.

O clima intimista de “My Foolish Heart” é perfeito para demonstrar a integração obtida por Hutcherson e DeFrancesco. A tônica da canção é o Hammond B3 fazendo a base para que o vibrafone tome o lugar principal em guiar a melodia, o que Hutcherson realiza com grande propriedade. Toda a motivação sentimental da canção é muito bem captada e expressa nesta versão.

O álbum é fechado com “Colleen”, uma canção que começa com uma clara inspiração na bossa nova. O sax soprano de Blake dá ainda mais suavidade à melodia, que flui com grande leveza, enquanto o ritmo puxado por Landham é bem marcado e até estático. O solo de Langley dá continuidade ao trabalho do soprano colocando a interpretação das seis cordas para o tema central, que ainda é expandido na interpretação de DeFrancesco, que se permite mais liberdade na improvisação.

A idéia de juntar o Hammond B3 que pertenceu a Jimmy Smith e o vibrafone de Bobby Hutcherson funcionou muito bem nesse álbum, que faz de Joey DeFrancesco um dos principais organistas de jazz da atualidade. A maneira como DeFrancesco sabe se colocar nas canções, ora como principal condutor da melodia, ora como mero coadjuvante, explica em grande parte o sucesso na execução do repertório de Organic Vibes, uma vez que ele não se comporta como uma estrela que precisa ser a mais brilhante o tempo todo, mas trabalha na harmonia musical, o que é o ponto forte desse grupo. Altamente recomendável, Organic Vibes deve agradar aos fãs do órgão Hammond B3 e também aos aficionados por vibrafone.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Joey DeFrancesco: órgão Hammond B3;
Bobby Hutcherson: vibrafone;
Ron Blake: saxofone tenor, saxofone soprano, flauta (1, 2, 9);
George Coleman: saxofone tenor (4, 5, 6);
Jake Langley: guitarra (1, 4, 9);
Byron Landham: bateria.

Faixas de Organic Vibes:
01. The Tackle [DeFrancesco] 8:09
02. Little B's Poem [Hutcherson] 6:29
03. I Thought About You [Mercer, VanHeusen] 9:26
04. Somewhere in the Night [Reid, Reid] 8:33
05. Down the Hatch [DeFrancesco] 6:51
06. Speak Low [Nash, Nash, Weill] 7:52
07. Jeneane's Dream [Landham] 4:21
08. My Foolish Heart [Washington, Young] 6:06
09. Colleen [DeFrancesco] 6:43

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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “Litte B’s Poem”:


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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “I Thought About You”:


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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “Somewhere in the Night”:

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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco tocando “Speak Low”:

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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “My Foolish Heart”:

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Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “Just Friends” (canção não incluída no álbum):




Veja o vídeo de Joey DeFrancesco e Bobby Hutcherson tocando “Take the Coltrane” (canção não incluída no álbum):

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sábado, 11 de outubro de 2008

Você está convidado a adentrar o cinema invisível de Aaron Parks

Lançado em 2008 pela gravadora Blue Note, Invisible Cinema é o primeiro trabalho de Aaron Parks como líder para uma gravadora maior. Conhecido por ser o pianista do grupo do trompetista Terence Blanchard, Parks apresenta dez composições próprias, que fazem referência a um jazz “espontâneo” e “cinemático”, conforme definições do próprio Parks. O talento do pianista e seus duetos viajantes com o guitarrista Mike Moreno são destaques de Invisible Cinema.

“Travelers”, a primeira faixa do álbum, puxa o ouvinte para duas rotas diferentes, porque de um lado o baterista Eric Harland executa uma base de jazz-funk; enquanto, o pianista Aaron Parks toca uma melodia cheia de recursos e que se constrói o tempo todo, que ao final da canção se transforma em uma melodia clássica, tanto que se ouvido separadamente, o solo de Parks é próximo de uma sonata.

A bela melodia de piano de “Peaceful Warrior” é a marca dessa canção por sua suavidade e apurado senso estético. A bateria de Harland e o baixo de Matt Penman conduzem o ritmo para que Parks para solar espontaneamente, o que ele faz com maestria. A melodia introspectiva passa por uma transformação e uma mudança de andamento com a entrada do solo do guitarrista Mike Moreno que adiciona um balanço à canção. O diálogo entre o piano e a guitarra é a tônica da segunda parte da canção. Uma nova mudança de andamento faz a melodia voltar à introspecção, quando Parks, tocando belas notas, conduz a canção para o seu empolgante final. Apenas nessa canção, o pianista já mostra ser cheio de recursos como intérprete e compositor, pois “Peaceful Warrior” é uma bela obra-de-arte.

“Nemesis” se constrói a partir do piano de Parks tocando repetidamente a mesma nota e Moreno fazendo um solo repleto de lacunas. O efeito do piano, do baixo e da bateria é quase hipnótico, pois o ritmo é meticulosamente mantido até que Parks se liberta para solar. Mas é um engano pensar que o piano está realmente liberto, pois Parks volta a marcar o ritmo com uma das mãos e tocar um glockenspiel com a outra; enquanto, Moreno conduz a melodia com um solo viajante à Pat Metheny.

“Riddle Me This” tem um ritmo constante e bem marcado pelo baixo de Penman e a bateria de Harland, enquanto o piano de Parks, acompanhado pela guitarra de Moreno, produz uma melodia que tem um crescendo e que vai envolvendo até acabar bruscamente. Já “Into the Labyrinth” é uma canção solo de Parks, na qual uma atmosfera intimista é preponderante.

A primeira parte de “Karma” contrasta o ritmo balançante de Harland e Penman com a melodia introspectiva de Parks e Moreno. A progressão da canção vai dando mais liberdade ao pianista e ao guitarrista que são responsáveis por belos duetos em uma peça que se caracteriza por sua espontaneidade e por seu estilo viajante, que conduz o ouvinte devido a sua fluidez. Parks e Moreno conseguem um entrosamento muito bom nessa faixa, e o mesmo pode ser dito de Penman e Harland, o que faz o trabalho do quarteto excelente.

“Roadside Distraction” cativa por seu balanço, que incorpora alguns elementos bluesy. Parks e Moreno dialogam bem na construção da melodia, enquanto Penman e Harland de maneira competente fazem o acompanhamento.

“Harvesting Dance” encontra na melodia elegantemente conduzida por Parks a sua força central, que é bem distribuída nas batidas bem marcadas por Harland, no baixo seguro de Penman e, principalmente, nos solos e acompanhamentos de Moreno, que encontra muita liberdade para deixar sua sonoridade fluir. É fácil deixar-se envolver pela canção, porque ela é muito bem construída e os duetos de guitarra e piano são repletos de energia.

A suavidade na condução rítmica de Harland e Penman em “Praise” encontra no piano de Parks, e no acompanhamento de Moreno, uma peça de grande beleza. Trata-se de uma canção em que o piano está em primeiro plano, o que faz de Parks o responsável por uma melodia tão agradável. Apesar de lenta, não é uma balada; apesar de suave, não soa intimista; “Praise” é uma linda canção que cativa.

O álbum encerra com “Afterglow”, uma canção solo de Parks com um tom intimista, na qual ele desenvolve um tema sem nunca se afastar da sua referência inicial.

Já considerado como um dos grandes lançamentos de jazz de 2008, Invisible Cinema, que alcançou a posição 21 no Top Jazz Albums da Billboard, dificilmente deixará de dar alguma premiação ao pianista e compositor Aaron Parks nas tradicionais eleições de melhores do ano. O álbum é consistente e apresenta canções de qualidade, além de mostrar não apenas o talento e a capacidade técnica de Parks, mas traz também um grupo de talentosos músicos que juntos realizam um grande trabalho. Parks é um dos mais promissores pianistas de sua geração e alguém de quem pode-se esperar muita contribuição para o jazz o século XXI.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Aaron Parks: piano, mellotron (3), glockenspiel (3), teclado (3, 5, 6, 8);
Mike Moreno: guitarra (2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9);
Matt Penman: baixo (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9);
Eric Harland: bateria (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9).

Faixas de Invisible Cinema:
01. Travelers [Parks] 5:34
02. Peaceful Warrior [Parks] 9:39
03. Nemesis [Parks] 6:14
04. Riddle Me This [Parks] 2:43
05. Into the Labyrinth [Parks] 2:53
06. Karma [Parks] 8:06
07. Roadside Distraction [Parks] 2:44
08. Harvesting Dance [Parks] 9:35
09. Praise [Parks] 4:43
10. Afterglow [Parks] 2:45

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Veja o vídeo de Aaron Parks tocando “Travelers”:



Veja o vídeo de Aaron Parks tocando “Peaceful Warrior”:



Veja o vídeo de Aaron Parks tocando “Nemesis”:

domingo, 5 de outubro de 2008

Regina Carter estará com você nesta jornada sentimental

Lançado em 2006, pela gravadora Verve, o álbum I’ll Be Seeing You: A Sentimental Journey é uma homenagem a Grace Louise Carter, a falecida mãe da violinista Regina Carter. O repertório escolhido é composto pelas canções prediletas da mãe dela, a maior parte standards norte-americanos, blues e canções da Swing Era. O clima nostálgico é constante em todo o álbum, o que faz deste CD uma bela oportunidade para apreciar composições de Hart, Rodgers, Ellington e outros com uma ótima qualidade de gravação. Prepare-se para 66 minutos de muito swing.

A primeira faixa do álbum é uma versão post-bop de “Anitra’s Dance”, do compositor pós-romântico norueguês Edvard Grieg, parte da célebre obra Peer Gynt. A apropriação jazzística da canção deu nova vida à obra, pois a adição da seção rítmica com Alvester Garnett na bateria e Matthew Parrish no baixo incorpora mais dinamismo ao conjunto, uma vez que a melodia, conduzida por Regina Carter no violino, Gil Goldstein no acordeom e Xavier Davis no piano, é acelerada e ganha muito em balanço. Destaque para o dueto entre o violino e o clarinete de Paquito D’Rivera, apoiado na seção rítmica, que dá um ritmo dançante à canção, que, naturalmente, não existia na composição original.

“Little Brown Jug”, popularizada com a orquestra de Glenn Miller, retorna, nesta versão, para as suas origens de canção folk. Tocada por um pequeno grupo, a melodia é levada pelo violino de Carter, que em primeiro plano ganha o destaque principal, enquanto o acordeom de Goldstein e o clarinete de D’Rivera complementam o som deixando-o mais robusto. O trio piano, baixo e bateria faz o acompanhamento com muita precisão, ditando o ritmo sem atrair para si o foco principal.

“Bei Mir Bist Du Schön”, uma canção de origem judaica com versos cantados em inglês, popularizada pelas Andrews Sisters nos anos 1930 e depois gravada por Benny Goodman, tem a participação da cantora Dee Dee Bridgewater. A fusão de folk e swing é a tônica da canção, que conta ainda com belos diálogos entre o violino e o clarinete, além de uma interpretação empolgante de Bridgewater com direito a scat singin’.

A beleza de “Sentimental Journey” na interação entre o baixo de Parrish, que conduz o ritmo, mas também dialoga com violino de Carter e o clarinete de D’Rivera. Com uma levada blues, a canção consegue o seu objetivo que é soar sentimental. Os solos de Carter e D’Rivera sofrem mudanças de andamento como que cantando versos de um velho blues, que expressa uma dor interior. Um ponto alto do álbum.

“You Took Advantage of Me” é cantada por Carla Cook, que faz uma bela interpretação. Os demais instrumentos são relegados ao papel de meros acompanhadores, exceto o violino de Carter que ganha mais espaço com um solo cheio de balanço, na parte mais swingada da canção.

“St. Louis Blues”, que ganhou enorme popularidade com Bessie Smith e Louis Armstrong, nesta versão tem seus versos cantados por Cook. Destaque para os solos em seqüência, primeiro de violino de Carter, depois de acordeom de Goldstein e posteriormente de clarinete de D’Rivera. Carregada de sentimento em sua voz, Cook merece elogios por sua interpretação de uma mulher que sofre por seu amado.

“A-Tisket, A-Tasket”, eternizada na voz de Ella Fitzgerald, ganha aqui uma versão instrumental, na qual o violino de Carter puxa a conhecida melodia onde a voz se encaixaria. O baixo de Parrish e a bateria de Garnett dão o caminho certo para os demais instrumentos conduzirem a melodia com muito swing. Destaque para os duetos entre o violino de Carter e o piano de Davis, que encontram o tempo perfeito e fazem um excelente trabalho de complementação.

A composição de Duke Ellington, “Blue Rose”, tem mais uma vez um belo dueto entre violino e piano, mas desta vez com um tom mais reflexivo que aponta uma direção mais intimista e triste.

“This Can’t Be Love”, composta por Rodgers, parte do musical The Boys from Syracuse, é cantada por Bridgewater com uma interpretação cheia de balanço para a letra irônica da canção que diz: “This can’t be love because I fell so well/ no sob. No sorrow, no sight”. O baixo de Parrish responsável pela condução do ritmo interage muito bem com o piano e o violino, fornecendo todo o suporte, uma vez que a bateria não está presente nesta gravação. O scat de Bridgewater se encaixa muito bem nos diálogos com o piano, o baixo e o violino, dando um balanço muito gostoso à canção. Certamente, um dos melhores momentos do álbum.

“How Ruth Felt”, a única composição de Carter para o álbum, é dedicada a Ruth Felt, presidente da organização de artes San Francisco Performances, que foi importante para Regina durante o período em que sua mãe estava doente. A canção é uma balada construída sobre uma bela melodia intercambiada pelo violino de Carter e o piano de Davis, com uma participação destacada da seção rítmica. Há um quê de ternura em toda a canção, que a torna muito bonita.

A balada “There’s a Small Hotel”, outra composição de Hart e Rodgers, cantada por Cook mantém o clima nostálgico como tema central do álbum. A levada é típica da Swing Era, na qual o violino de Carter e o piano de Davis dialogam com muito entrosamento fazendo o acompanhamento à voz de Cook, cuja interpretação agrega sensualidade e sensibilidade à canção.

“I’ll Be Seeing You” é uma canção sentimental de muito sucesso nos anos 1940 com Bing Crosby, que nesta versão puramente instrumental tem a melodia toda centrada no violino de Carter, que é quem dá a direção, enquanto o acordeom de Goldstein e o piano de Davis fazem o acompanhamento que enriquece a obra. Com essa canção, Carter dá um tom de despedida ao álbum e à sua mãe.

Ainda que o violino no jazz não seja uma novidade, pois artistas como Stephane Grappelli, Jean-Luc Ponty entre outros já o utilizaram antes, ainda não é algo usual. Regina Carter consegue fazer do violino um instrumento tão integrado ao jazz quanto um trompete ou um piano, pois sua habilidade para improvisar e swingar são destacadas. I’ll Be Seeing You: A Sentimental Journey é um álbum que funciona porque apresenta releituras de standards em versões cheias de balanço com muita qualidade.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Regina Carter: violino;
Xavier Davis: piano (exceto 4);
Matthew Parrish: baixo;
Alvester Garnett: bateria (exceto 4 e 9);
Dee Dee Bridgewater: vocais (3 e 9);
Carla Cook: vocais (5, 6 e 11);
Paquito D'Rivera: clarinete (1, 2, 3, 4 e 6);
Gil Goldstein: acordeom (1, 2, 3, 6 e 12).

Faixas de I’ll Be Seeing You: A Sentimental Journey:
01. Anitra's Dance [Grieg] 2:55
02. Little Brown Jug [Winner] 4:46
03. Bei Mir Bist Du Schön [Cahn, Chaplin, Jacobs, Secunda] 4:43
04. Sentimental Journey [Brown, Green, Homer] 6:07
05. You Took Advantage of Me [Hart, Rodgers] 4:55
06. St. Louis Blues [Handy] 7:09
07. A-Tisket, A-Tasket [Feldman, Fitzgerald] 8:01
08. Blue Rose [Ellington] 2:52
09. This Can't Be Love [Rodgers] 5:15
10. How Ruth Felt [Carter] 5:52
11. There's a Small Hotel [Hart, Rodgers] 5:21
12. I'll Be Seeing You [Fain, Kahal] 5:09

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Veja o vídeo de Regina Carter interpretando “Anitra’s Dance” ao vivo:



Veja o vídeo de Regina Carter interpretando “Blue Rose” ao vivo: