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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

One For All quer saber o que está acontecendo

Lançado em 2007 pela gravadora japonesa Venus, o álbum What’s Going On? do grupo One For All reúne seis grandes instrumentistas do jazz atual, tendo no saxofonista Eric Alexander a figura de maior destaque. Jim Rotondi e Steve Davis, trompete e trombone, respectivamente completam a linha de frente dos instrumentos de sopro, enquanto David Hazeltine, Joe Farnsworth e John Webber formam a seção rítmica. Desenvolvido de maneira paralela às carreiras dos seis músicos, o grupo encontrou neste álbum uma maneira de se expressar jazzisticamente através de composições da soul e da black music. O resultado é um CD de muita qualidade de transita pelo swing e pelo hard bop.

A faixa de abertura, “What’s Going On?”, que também dá nome ao álbum, começa em ritmo forte e acelerado capitaneado pelo baixo de John Webber, pela bateria de Joe Farnsworth e pelo piano de David Hazeltine. A inclusão do trompete de Jim Rotondi, do sax tenor de Eric Alexander e do trombone de Steve Davis dá bastante balanço à canção. Apesar de ser um sexteto, o grupo quase soa como uma big band, pois os três instrumentos de sopro tocam muito bem alinhado permitindo ao solista uma forte sustentação sonora que ainda tem o apoio de uma seção rítmica exemplar.

“How Sweet It Is (To Be Loved By You)” é uma canção cheia de swing. De início o solo de sax tenor de Alexander sustentado por Davis e Hazeltine dá a direção musical, que é seguida no solo de trombone de Davis e prossegue, posteriormente, no solo de trompete de Rotondi. Hazeltine que vinha fazendo o acompanhamento assume a condução melódica até os sopros, encabeçados por Alexander, retomarem a frente em execuções cheias de balanço. Estruturalmente a canção é simples, mas seu swing é envolvente. O difícil é não se deixar levar pelo ritmo e pela melodia.

O ritmo acelerado puxado pela bateria de Farnsworth e pelo baixo de Webber em “Let’s Stay Together” dá a direção aos demais instrumentos. Alexander sola com bastante liberdade nessa faixa, bem como Rotondi que toca suas notas com bastante rapidez. Nesta versão hard bop, todo o grupo mostra muita coesão, mas o destaque maior ainda é para o saxofonista responsável pelo motivo da canção.

“Reasons” tem um quê de bossa, principalmente em função do ritmo malemolente produzido por Farnsworth e Webber. A batida constante é a sustentação para o desenvolvimento dos solos de Alexander, Rotondi, Davis e Hazeltine. Quando todos os instrumentos estão tocando juntos, novamente cabe ao saxofonista a condução da melodia. O sexteto consegue encontrar a medida perfeita entre a bossa e a balada para realizar uma canção com um swing muito agradável. Apenas siga no embalo.

“Golden Lady” explora muito bem os recursos do sexteto, uma vez que os instrumentos de sopro progridem em conjunto e trocam os papéis de condutor da melodia e de acompanhamento com bastante desenvoltura. Ao assumir a frente melódica com seu piano, Hazeltine dá início à sessão de solos, que prossegue com o trompete de Rotondi e o sax tenor de Alexander. Quando todos voltam a tocar juntos o que se tem é uma deliciosa jam session cheia de balanço, que mesmo com o atravessamento de Davis no final não é afetada.

A marcação rítmica do baixo de Webber e da bateria de Farnsworth em “For the Love of You” dão ao piano de Hazeltine o espaço para trilhar uma linha melódica cheia de swing, que é enriquecida pelos sopros. Mais uma vez o destaque é a integração do grupo, no qual cada solista tem a certeza de que a melodia terá um seguimento coerente, enquanto a seção rítmica dá a sustentação ao trabalho do sexteto, principalmente pela precisão e competência de Farnsworth.

“Stop! In the Name of Love” tem um cadenciamento mais pop com clara influência da black music, que dá ao trompete de Rotondi e ao trombone de Davis o destaque maior. Claramente a melodia cresce quando há a participação dos dois músicos citados, porque ambos são responsáveis pelo refrão em uma canção naqual a marcação estrofe e refrão é bem evidente. Embora não tenha sido composta como um jazz, a versão do One For All funciona e empolga.

“Moon Blue” tem um tema principal conduzido pelo trio Rotondi, Alexander e Davis, que intercalado pelos solos ora swingado de Alexander, ora enérgico de Rotondi, ora cheio de balanço de Davis, ora acelerado de Hazeltine, sempre volta para estabelecer os elos entre as diferentes partes da canção. Ao fundo Farnsworth e Webber estão a estabelecer a medida exata de onde cada solista pode ir. Com essa seção rítmica, certamente, eles podem ir em segurança.

A nona e última canção do álbum, “Betcha By Golly, Wow”, tem uma levada característica da Swing Era e dá oportunidade a todos os músicos para desenvolver as suas sonoridades em solos ou duetos. A melodia simples é de fácil acompanhamento pelo ouvinte e, talvez, esse seja um de seus trunfos.

A coesão entre os músicos do One For All é a principal razão para o grupo soar tão bem. Ainda que a fama maior recaia no saxofonista Eric Alexander, que é com razão um dos principais nomes do sax tenor atual, Joe Farnsworth e Jim Rotondi também são a alma desse sexteto. Ainda assim, como não valorizar o excelente trabalho de David Hazeltine, John Webber e Steve Davis? Ao reunir tantos nomes importante do jazz do século XXI, o One For All é uma seleção de ótimos instrumentistas, que levam em paralelo bem-sucedidas carreiras como líderes e sidemen. What’s Going On? é altamente recomendável para quem deseja ouvir músicos de primeira qualidade em um trabalho com cara de reunião de amigos.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Eric Alexander: saxofone tenor
Jim Rotondi: trompete
Steve Davis: trombone
David Hazeltine: piano
John Webber: baixo
Joe Farnsworth: bateria

Faixas de What’s Going On?:
01. What's Going On? [Benson, Cleveland, Gaye] 6:50
02. How Sweet It Is (To Be Loved by You) [Dozier, Holland] 5:23
03. Let's Stay Together [Green] 8:06
04. Reasons [Bailey, White] 6:53
05. Golden Lady [Wonder] 5:51
06. For the Love of You [Isley] 6:24
07. Stop! In the Name of Love [Dozier, Holland] 5:31
08. Moon Blue [Wonder] 4:59
09. Betcha by Golly, Wow [Bell, Creed] 7:42

Ouça um pouco do álbum no site da gravadora Venus.

Comprar o álbum?

sábado, 27 de setembro de 2008

É a hora de Joe Farnsworth

Joe Farnsworth é um dos bateristas mais requisitados para sessões de gravação de jazz atualmente. Preferido por músicos da velha e da atual geração jazzística, Farnsworth já gravou diversos álbuns como sideman, mas em 2004, a gravadora 441 lançou It’s Prime Time, seu segundo CD como líder. Reunindo velhos parceiros, o baterista conseguiu juntar músicos lendários como Ron Carter, Benny Golson e Harold Mabern com grandes nomes do jazz atual como Eric Alexander e David Hazeltine. A precisão e o apurado senso rítmico chamam a atenção para o estilo de Farnsworth, um conceituado jazzista do século XXI que merece mais atenção por parte dos fãs desse tipo de música.

A primeira faixa do álbum, “Sweet Poppa” abre com Joe Farnsworth puxando o ritmo da canção para a entrada de Harold Mabern ao piano, Ron Carter no baixo e Eric Alexander no sax tenor, que conduz a melodia com sua habitual elegância executando fraseados rápidos e segurando a nota principal, alongando o seu tempo. Destaque para o solo de Mabern muito bem apoiado pela precisão da dupla Farnsworth e Carter. Uma bela demonstração de como tocar um hard bop sem soar datado.

“Old Folks” começa como uma balada introduzida por David Hazeltine ao piano, seguido por Curtis Fuller no trombone, que dá a direção da melodia, enquanto Farnsworth dita o ritmo com suas vassourinhas na caixa, ao lado do sempre preciso Carter, que também encontra espaço para solar. Nesse momento o trio piano-baixo-bateria faz um excelente trabalho, quando Carter passa o solo para Hazeltine e Farnsworth dita o ritmo com o pedal. O que era uma balada inicialmente já ganha aspecto de hard bop com um balanço gostoso. Fuller, por fim, retoma o clima inicial e encerra a canção com um solo introspectivo.

O trio Farnsworth, Carter e Hazeltine abrem a canção com um ritmo swingado e contagiante, que ganha ainda mais qualidade com a adição do trompetista Jim Rotondi, que tocando com lacunas se comunica muito bem com a seção rítmica. Alexander incorpora mais força à melodia e ao mote central da canção. A condução de Farnsworth é exemplar, porque consegue um balanço envolvente. Em sua única composição para o álbum, o baterista ganha destaque amplo, mesmo que apenas na condução, pois nada foi “inventado” para que o seu instrumento se sobressaísse perante os demais. A qualidade de Farnsworth é demonstrada na harmonia do grupo.

Em “Stable Mates”, Farnsworth puxa o ritmo para a entrada dos veteranos Benny Golson no sax tenor, Carter no baixo e Mabern no piano. Esse encontro de gerações rende ao álbum mais de sete minutos de contemplação: primeiro o destaque está em Golson, que indica a direção melódica, depois Mabern sola com seu balanço habitual, posteriormente Farnsworth coloca seu vigor no chimbal com a baqueta esquerda, enquanto o pedal trabalha no bumbo e a baqueta direita passeia pelas demais partes da bateria. A reentrada de Golson no final da canção não diminui a intensidade do baterista, que segue marcando o ritmo com a mesma precisão. No fim, a canção é dos dois.

“Five Spot After Dark” tem o seu tema marcante executado por Golson, que alterna com Fuller a condução da melodia. A passagem de solos de um para o outro dá dinamicidade à canção, que dispõe ainda de uma base sólida sustentada por Farnsworth, Carter e Mabern.

“And So, I Love Again” é uma balada com um tom melancólico, principalmente pelo modo como Golson consegue fazer o seu sax tenor soar introspectivo. Farnsworth faz uso das vassourinhas para marcar o ritmo, enquanto Mabern estabelece algum diálogo com o sax, que permanece o tempo todo em destaque.

“The Third Plane” tem uma levada bossa nova puxada pela seção rítmica e por Alexander, que é enriquecida pelo trompete de Rotondi, que tem liberdade para solar. O solo de Carter, conduzido por Farnsworth, agrega à canção ainda mais balanço, que é estendido por Hazeltine. O tema inicial retoma para encerrar a canção.

Uma versão hard bop de “Hello, Young Lovers” tem início com Farnsworth repercutindo o chimbal e Carter marcando o tempo para Fuller introduzir o trombone na canção e travar um diálogo com o sax tenor de John Farnsworth, irmão do baterista. O trompete de Rotondi é adicionado e estabelece ainda mais dinamismo à faixa por seu soar rápido de cada nota, John Farnsworth desacelera a melodia, embora a seção rítmica siga na corrida. Hazeltine ao solar mantém a melodia no mesmo ritmo. O solo preciso de bateria de Joe Farnsworth é perfeitamente incorporado por Carter, que volta a marcar o tempo inicial da canção, que novamente introduz o trombone de Fuller à melodia e consegue chegar o ciclo, levando a canção de volta ao ponto inicial.

O álbum encerra com “Jose’s Lament”, uma faixa em que Farnsworth e Carter fazem a condução e deixam Alexander e Hazeltine solar com liberdade. O resultado é uma canção despretensiosa que reúne músicos de primeira linha tocando um tema agradável de acompanhar.

Joe Farnsworth conseguiu reunir reunir velhos parceiros, para quem já havia gravado, em seu álbum e apostou em uma seleção musical que juntasse alguns temas novos e standards. O resultado foi o nascimento de um grande álbum com músicos de primeira grandeza.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Joe Farnsworth: bateria
Ron Carter: baixo
David Hazeltine: piano (2,3,7,8,9)
Harold Mabern: piano (1,4,5,6)
Eric Alexander: saxofone tenor (1,2,3,7,9)
Benny Golson: saxofone tenor (4,5,6)
Curtis Fuller: trombone (2,5,8)
Jim Rotondi: trompete, flugelhorn (3,7,8)
John Farnsworth: saxofone tenor (8)

Faixas de It’s Prime Time:
01. Sweet Poppa [Mabern] 5:46
02. Old Folks [Hill, Robison] 7:20
03. Prime Time [Farnsworth] 8:02
04. Stable Mates [Golson] 7:11
05. Five Spot After Dark [Golson] 5:50
06. And So, I Love Again [Golson] 4:20
07. The Third Plane [Carter] 5:37
08. Hello, Young Lovers [Hammerstein, Rodgers] 7:44
09. Jose's Lament [Hazeltine] 7:06

Ouça um pouco do álbum no site Lastfm.com.

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