terça-feira, 2 de setembro de 2008

Qual é a nova de Chico Pinheiro e Anthony Wilson?

A parceria entre o guitarrista norte-americano Anthony Wilson, um apreciador de bossa nova e MPB, e o violonista/guitarrista paulistano Chico Pinheiro, um autodidata de grande talento, deu como resultado o álbum Nova, lançado em 2007 pela gravadora Buriti. Membro da banda de Diana Krall, Wilson sugeriu o encontro dos músicos, pois ficou impressionado com a musicalidade do brasileiro. Mesclando influências de jazz, bossa nova, samba e ritmos cubanos, Nova é um grande trabalho que merece a atenção dos fãs de jazz deste século XXI.

Café com Pão”, a primeira canção do álbum, tem em seu título uma boa analogia para marcar o encontro do entusiasmo pela música brasileira do guitarrista Anthony Wilson com o lirismo e estilo jazzístico do violonista e guitarrista Chico Pinheiro. A faixa é marcada por um tema central tocado com muito balanço e malemolência, que encontra na liberdade de improvisação uma parceria muito boa.


Tempestade” é uma canção que cresce a partir de um tema central trocado entre o flugelhorn de Daniel D’Alcântara e a guitarra de Wilson para uma melodia mais complexa, onde o piano de Fabio Torres e o dueto de Pinheiro e Wilson constroem juntos um trabalho de beleza e precisão.

A cançãoLaranjeiras” possui uma agradável melodia intimista, que muito deve ao trabalho de Torres ao piano, mas também aos solos trocados entre o violão de Pinheiro e a guitarra de Wilson, que dão mais vida ao conjunto da obra.


Cuba” é envolvente com suas variações e o balanço do baixista Paulo Paulelli, o baterista Edu Ribeiro e o pianista Fabio Torres, que contam ainda com bom arranjo de metais e sopros que inclui clarinete, sax alto, sax tenor, sax barítono, flugelhorn e trompete. Pinheiro na guitarra conduz o ritmo, enquanto o grupo todo move-se perfeitamente entre ritmos latinos e o jazz.


Conforme nos indica o título da canção, “Planície”, é retilínea, sem altos e baixos, por onde a melodia flui por uma direção e segue nesse caminho. A sobreposição das notas pelo violão de Pinheiro, pela guitarra de Wilson e pelo violão 7 cordas de Swami Jr. dá uma sensação de preenchimento e estabelece um momento de total integração entre os músicos, ocasionando uma singular fluência.

O convidado especial em “When You Dream”, composição de Wayne Shorter, é Ivan Lins acompanhado por um coral de sete vozes entre mulheres e meninas. Mais uma vez a técnica de Pinheiro tocando violão e guitarra se destaca, desta vez em uma faixa com um maior apelo pop, principalmente pelos vocais finais, que se tornam dispensáveis, uma vez que são chatos e atrapalham quando se quer prestar atenção no bom trabalho das guitarras e do piano. Certamente esse é o ponto mais fraco de todo o álbum.


“Easter Monday” é uma prazerosa e breve composição de Wilson, cujo papel é ser uma introdução à canção quenome ao álbum, cuja melodia é claramente inspirada em Antonio Carlos Jobim e representa um belo momento de encontro entre bossa nova e jazz como a 50 anos. “Novanos dá a oportunidade de ouvir Pinheiro tocando guitarra, enquanto Wilson fica encarregado do violão. Esta canção pode ser ouvida como um dos raros momentos em que o passado pode ser reescrito sem soar fora de moda. Tocada com sutileza e total harmonização entre os diferentes instrumentos, o brilho da canção está na integração e no aprimorado diálogo queentre guitarra e violão, entre piano, baixo e bateria.

O dueto de guitarras “Two Fives” estabelece quase que uma simbiose inicial, que vai se separando em caminhos paralelos constituídos por uma troca, em que um músico cita o outro logo adiante, alternando entre guitarra base e guitarra solo. Embora a musicalidade de Pinheiro pareça surgir com mais naturalidade e beleza, Wilson consegue colocar muito bem o seu estilo, ocasionando uma linda junção de particularidades que refletem na própria música.

“Requebre que eu dou um doce” é um samba interpretado pelo cantor Dori Caymmi, filho do compositor Dorival Caymmi, e pelo pianista Cesar Camargo Mariano, ambos como convidados especiais nesta canção que é diferente de tudo gravado nesse álbum. Entretanto, é um grande momento do CD, porque prova a virtuosidade dos músicos que podem unificar ritmos distintos e ainda assim soar muito bem em todos eles.


A naturalidade de “Interlude” é o seu ponto mais forte, pois a canção flui como se todos tivessem decidido tocar apenas para se conhecerem melhor. O piano preciso e melódico de Torres oferece o mote central que vai ganhando a participação do baixo acústico de Paulelli, da bateria de Ribeiro e posteriormente pelo violão de Pinheiro e pela guitarra de Wilson. O resultado é um prazer para os ouvidos.

Encerrando o álbum, “Alla Chitarra” é um brilhante trio de cordas formado por Pinheiro e Wilson nas guitarras e por Swami Jr. no violão 7 cordas. Mais uma vez a sintonia e o diálogo entre as guitarras dá o valor positivo a este trabalho que se mostra não apenas relevante, mas muito respeitável. Técnica e melodia soam de uma maneira singular para produzir um daqueles momentos que o deixam satisfeitos e com a vontade de ouvir todo o álbum mais uma vez.

O resultado dessa parceria entre Chico Pinheiro e Anthony Wilson é muito positivo, pois retoma a integração entre o jazz e a música brasileira com novas composições e não apenas releituras de tradicionais canções famosas no mundo inteiro. A iniciativa de fazer algo novo é por si muito boa, mas alcançando a qualidade demonstrada em Nova, o que se tem é um álbum de grande valor artístico. Felizmente, a divulgação do CD tem sido feita pelos músicos em concertos pelo Brasil e EUA. Entre 2 e 6 de setembro de 2008, Chico Pinheiro e Anthony Wilson apresentam o repertório de Nova em Oakland e Culver City, na Cafifórnia. Mais informações sobre as datas dessas apresentações no site oficial de Chico Pinheiro.


Todos os músicos que participaram do álbum:

Chico Pinheiro: violão (1, 2, 3, 5, 6, 7, 10, 11), guitarra (1, 2, 4, 6, 8, 9, 12);

Anthony Wilson: guitarra (1, 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 12), violão (8);

Fábio Torres: Rhodes (1, 6, 10), piano (2, 3, 4, 6, 7, 8, 11);
Paulo Paulelli: baixo acústico (3, 4, 6, 7, 10, 11);
Marcelo Mariano: baixo elétrico (1, 2, 8);
Edu Ribeiro: bateria (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 10, 11);
Armando Marçal: percussão (1, 2, 4, 6, 7, 10);

Swami Jr.: violão 7 cordas (5);
Nailor Proveta: clarinete (4), sax alto (4, 10);
Matt Zebley: flauta (8), sax alto (6, 8);

Vinícius Dorin: flauta (4, 10), sax tenor (4, 10), sax barítono (4);

Daniel D’Alcântara: flugelhorn (2, 4, 10), trompete (4);

Paulo Malheiros: trombone (4, 10);

Gilbert Castellanos: trompete (4, 6, 8), flugelhorn (8);

Garrett Smith: trombone (6, 8);

Matt Otto: sax tenor (6, 8);

Adam Schroeder: sax barítono (6, 8)

Ivan Lins: vocal (6);

Luiza Rizzi: vocal (6);

Maria Mariano: vocal (6);

Inez Pinheiro: vocal (6);

Dani Gurgel: vocal (6);

Luciana Alves: vocal (6);

Cida Souza: vocal (6);

Tatiana Parra: vocal (6);

Cesar Camargo Mariano: pads (8); piano (10);

Dori Caymmi: vocal (10);

Luiz Afonso Montanha: clarone (10);



Faixas de Nova:

01. Café com Pão [João Donato/ Lysias Ênio] 06:50

02. Tempestade [Chico Pinheiro/ Chico César] 05:48

03. Laranjeiras [Anthony Wilson] 06:44

04. Cuba [Chico Pinheiro] 06:40

05. Planície [Chico Pinheiro] 06:38

06. When You Dream [Wayne Shorter] 06:28

07. Easter Monday [Anthony Wilson] 01:56

08. Nova [Chico Pinheiro] 05:44

09. Two Fives [Anthony Wilson] 07:36

10. Requebre Que Eu Dou um Doce [Dorival Caymmi] 03:14

11. Interlude [] 02:31

12. Alla Chitarra [Anthony Wilson] 08:46

Ouça um pouco do álbum no My Space.

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domingo, 31 de agosto de 2008

A residência artística de Jason Moran

As composições de Artist in Residence, lançado em 2006 pela gravadora Blue Note, são trabalhos produzidos pelo pianista Jason Moran para três institutos de arte: o Walker Art Center em Minneapolis, o Dia Art Foundation e o Jazz at Lincoln Center. Extremamente criativo e com um olhar voltado para as inovações, Moran sempre soa diferente do Moran de seus álbuns anteriores. Neste especificamente, o pianista e compositor leva o jazz ao encontro do hip-hop, do canto lírico e do barulho urbano, provocando desde estranhamento até deleite. Constituindo-se em uma importante figura para o jazz do século XXI, Moran mostra em Artist in Residence que o jazz pode ir pelos caminhos que a criatividade o conduzirem.

O álbum inicia a partir de uma fusão de jazz com hip-hop chamada “Break Down”, que traz palavras de protesto e samples de Adrian Piper, em um ritmo marcado e constante, com a contribuição do baterista Nasheet Waits, enquanto o pianista Jason Moran leva a melodia por um caminho mais criativo em parceria com o baixista Tarus Mateen. É inegável que essa mistura não está no ponto certo, pois ao ouvinte parece que duas canções diferentes estão tocando juntas, como se você quisesse ouvir rap e alguém ligasse um aparelho que tocasse um jazz post-bop ao mesmo tempo... ou vice-versa. Enfim, a canção causa estranheza de início, o que é uma ousadia de Moran abrir o álbum com ela, mas momentos de brilho surgem ao dedilhar do piano.

“Milestone” é outra canção que faz uso de outro recurso não comum ao jazz: o canto lírico. O soprano Alicia Hall Moran, esposa de Jason, faz o contraponto entre a musicalidade das ruas mostrada na faixa anterior e a das salas de concerto. Através dos recursos de Moran ao piano e – muito – do guitarrista Marvin Sewell, além da base rítmica de Waits e Mateen, a canção consegue seguir sua direção muito bem marcada pelas notas do pianista.


“Refraction 2” vai adicionando os elementos aos poucos, primeiro o baixo, depois o piano, bateria e guitarra, em uma canção que vai se construindo sobre uma base rítmica constante e uma liberdade de improvisação de Moran, que logo é seguido por Sewell, que por sua vez toma outra direção, bem como Waits, enquanto Mateen fica sendo o responsável por manter o que foi erguido no início. Um belo trabalho, no qual pode-se apreciar um quarteto dando muito de si (e para si) sem seguir um só caminho. O ouvinte pode escolher por qual seguir ou tentar acompanhar todos se uma vez – se conseguir! Uma boa canção para se ouvir muitas vezes e aprender todas as rotas.

O piano solo de Moran em “Cradle Song” encontra sons sobrepostos, que por vezes parecem passos ou ranhuras em uma superfície. O fato é que a bela melodia é introspectiva e não sofre variações em sua estrutura e que Moran segue inventivo em sua intenção de misturar jazz com qualquer outra coisa, nem que seja apenas barulho! Exatamente como ele faz nessa canção.

“Artists Ought To Be Writing” é a primeira oração do discurso que inicia essa canção, que trata do papel do artista na sociedade. À medida que a voz sampleada de Adrian Piper vai perdendo intensidade, o piano de Moran cresce em uma intrincada e rica melodia. Ao sobrepor o instrumento ao discurso, o compositor indica que o artista ganha sua força com a obra em si, que o recurso do debate artístico é importante, porém esse não existiria sem os criadores e seus produtos.


“Refraction 1” é outra peça experimental de Moran, que toca uma melodia bem marcada em seu tema central, enquanto Joan Jonas faz uso de percussão, sinos, shakers e outros objetos/instrumentos para obter um efeito semelhante ao barulho urbano e ao ruído das ruas. A sonoridade de Moran parece sempre atravessada pelo barulho que não pode ser contido, pela falta de sossego das cidades grandes, onde o som de um piano parece atrapalhar a rotina do ir e vir de milhares de pessoas, onde as notas musicais parecem agredir a balbúrdia.


“Arizona Landscape” é um belo solo de Moran ao piano, que sustenta o ritmo com uma mão e expande a melodia com a outra. Uma agradável canção, que faz o ouvinte nem sentir falta de um baixo e de uma bateria, pois sozinho o pianista consegue preencher todos os espaços.

A mais longa canção do álbum, “Rain”, traz os recursos percussivos (djembe, kora) de Abdou Mboup, associados ao dedilhar do violão de Sewell, enquanto o trompetista Ralph Alessi conduz uma melodia com tons melancólicos, que ao ganhar dinamismo e velocidade, muda completamente o rumo musical. A bateria de Waits, o baixo de Mateen e o piano de Moran puxam um post-bop vigoroso e empolgante que atinge o ápice de todo o álbum.


“Lift Ev'ry Voice and Sing” apresenta uma agradável confluência de todos os instrumentos através de uma canção que adiciona um pouco mais de balanço e tem na guitarra de Sewell um destaque, pois o instrumento parece simular as vozes que se erguem e cantam, conforme sugere o título da faixa.


A décima e última faixa do álbum é “He Puts on His Coat and Leaves”, na qual Moran, novamente solo ao piano, executa com muita precisão um tema introspectivo com ares de despedida e muita beleza artística. São quase cinco minutos que passam tão rápido, mas que deixam a vontade de ouvir um pouco mais dessa adorável melodia, mas como nos indica o título, já é hora de vestir o casaco e partir.


Definitivamente Artist in Residence é um álbum que exige bastante familiaridade do ouvinte com jazz, pois Jason Moran não apenas compôs canções para preencher uma gravação, mas fez questão de experimentar novos rumos para o jazz em uma tentativa de expandir suas fronteiras até um ponto em que se questione se o que é tocado realmente é jazz. E é jazz o tempo todo, mas não apenas jazz, pois é jazz e algo mais. A mente criativa de Moran é responsável por um álbum de grande valor artístico, ainda que possa não ser totalmente apreciado inicialmente, pois exige um pouco mais do ouvinte.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Jason Moran: piano;
Marvin Sewell: guitarra (1, 2, 3, 8, 9);
Tarus Mateen: baixo (1, 2, 3, 8, 9);
Nasheet Waits: bateria (1, 2, 3, 8, 9);
Alicia Hall Moran: vocais (2);
Adrian Piper: voz sampleada (1, 5);
Joan Jonas: percussão, efeitos sonoros, sinos, claves, shaker (6);
Abdou Mboup: djembe, kora, talking drum (8);
Ralph Alessi: trompete (8).

Faixas de Artist in Residence:
01. Break Down [Moran] 3:17
02. Milestone [Moran] 3:34
03. Refraction 2 [Moran] 3:52
04. Cradle Song [VanWeber] 4:27
05. Artists Ought to Be Writing [Moran] 3:49
06. Refraction 1 [Moran] 6:16
07. Arizona Landscape [Moran] 3:07
08. Rain [Moran] 11:53
09. Lift Ev'ry Voice and Sing [Johnson, Johnson] 4:53
10. He Puts on His Coat and Leaves [Moran] 4:52

Ouça um pouco de Artist in Residence no site da gravadora Blue Note.

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