sábado, 28 de fevereiro de 2009

Jíbaro de Miguel Zenón

Lançado em 2005 pela gravadora Marsalis Music, Jíbaro do saxofonista alto Miguel Zenón é formado por dez faixas inéditas que remetem à musicalidade de Porto Rico, país de origem do líder do grupo. Zenón vem ganhando elogios e espaço no jazz atual graças ao seu modo de tocar que reflete muita elegância e suavidade. Se pensarmos em duas escolas de sax que influenciaram e influenciam gerações de músicos de jazz, Zenón estaria mais para a sutileza de Lester Young do que para a impulsividade de Coleman Hawkins. Não deixe de ouvir Jíbaro, pois este é um álbum muito bom.

A primeira faixa do álbum é “Seis Cinco”, que logo de início já revela a influência da musicalidade porto-riquenha e latino-americana no trabalho de Miguel Zenón. O piano de Luis Perdomo soa efetivamente como um instrumento de percussão, tal como indica a origem do som do aparelho, uma vez que a condução rítmica é primeiramente levada por ele, até que se juntam Antonio Sánchez na bateria e Hans Glawischnig no baixo. O sax alto de Zenón parte de uma melodia simples baseada em curtos fraseados repetitivos, que se desenvolvem em um solo mais intrincado. Uma mudança de andamento traz o piano de Perdomo para o primeiro plano, enquanto o ótimo Sánchez e Glawischnig fazem o acompanhamento. Zenón retoma a musicalidade festiva de Porto Rico em seu sax alto para encerrar a faixa.

O tema iniciado por Perdomo ao piano em “Farjardeño” encontra o baixo bem marcado de Glawischnig e a bateria de Sánchez, que marca o ritmo com direito a paradinhas que indicam a entrada de Zenón, cujo solo de sax alto a partir dos dois minutos indica uma leveza musical muito linda. O saxofonista tem o mérito de desenvolver seus temas com sutileza e elegância que já lhe renderam comparações com o lendário Paul Desmond. Sem dúvida estamos diante de um talento. Por mais que o ritmo do trio que acompanha Zenón seja contagiante nessa canção, que o baixo de Glawischnig consiga acompanhar a nossa pulsação ou que a precisão de Sánchez nos leve, é difícil não focar a atenção no saxofonista que ganha a cena com a sua maestria.

“Punto Cubano” nasce da interação entre a seção rítmica (Perdomo, Glawischnig e Sánchez) e os fraseados curtos de Zenón. A partir daí, a canção se desenvolve em um bonito solo de piano de Perdomo, que se encerra ao encontrar o sax alto de Zenón, cujo solo tem um quê de lamento.

O fraseado de sax alto facilmente reconhecível no início de “Aguinaldo” torna essa canção uma candidata a possível stardard no futuro. Canções com temas fáceis de lembrar como “Caravan” ou “Love For Sale” rapidamente caem no gosto popular, mas apenas o tempo dirá se o mesmo acontecerá a “Aguinaldo”. O ritmo conduzido por Glawischnig no baixo e Sánchez na bateria é lento e claramente caribenho, no qual Zenón no sax alto alterna o tema tema principal da canção e solos mais desenvolvidos, enquanto Perdomo no piano faz um acompanhamento preciso. Porém, é apenas a partir dos solos de baixo e, posteriormente, de piano que a canção se transforma. Com a aceleração do ritmo, o sax alto de Zenón ressurge mais solto, mas mantendo o refinamento e o mesmo senso melódico que consagrou o músico porto-riquenho.

Em “Chorreao” o destaque fica para a precisa marcação rítmica de Sánchez na bateria, que faz a complementação ideal para os fraseados curtos e pontuais de sax alto de Zenón. Ainda que o tema seja repetitivo, o ritmo é contagiante e certamente agradará a todos que gostam de jazz com um tempero latino.

A partir de um sentimental solo de sax alto, Zenón começa “Enramada” pelo que parece ser o seu final, tanto que após uma breve parada logo após o solo, a canção recomeça com uma ambientação quase cool centrada na sonoridade do saxofone. Uma nova breve parada e um novo recomeço em uma canção que se reinventa em um suave e belo solo de piano de Perdomo. Outra breve parada e o recomeço é iniciado por Zenón que fecha a canção tal como começou. O resultado parece ser várias canções interligadas gravadas em uma mesma faixa do CD. Um ouvinte mais desatento poderia pensar que quatro faixas foram passadas em pouco mais de seis minutos.

“Villarán” aproveita o final da canção anterior, mas logo a partir de uma breve introdução do baixo de Glawischnig, o ritmo muda sua cadência, tornando-se mais pulsante, mas não rápido. O sax alto de Zenón dá o tema e Perdomo ao piano desenvolve-o, depois há uma troca constante entre ambos na condução melódica. Mudanças de andamento e ótimos solos fazem dessa uma das melhores canções do álbum.

Aproveitando a base rítmica de suas origens porto-riquenhas, Zenón com seu sax alto compôs “Llanera” como uma canção que evidencia a bateria de Sánchez e o baixo de Glawischnig, além de proporcionar um ótimo solo de piano para Perdomo e um contagiante solo para o próprio Zenón.

“Mariandá” parte de um ritmo lento e de uma melodia arrastada e fragmentada liderada pelo sax alto de Zenón, que a desenvolve a medida que a bateria de Sánchez, o baixo de Glawischnig e o piano de Perdomo encontram o seu caminho. A partir daí a interação entre o saxofone e o piano faz um dueto agradável, que culmina em momentos mais intimistas com mudanças de andamento e um final diferente do esperado.

A faixa que dá nome ao álbum, “Jíbaro, é também a última do CD. Partindo de um início mais alegre, no qual o piano de Perdomo está em primeiro plano, o baixo de Glawischnig deixa a sua marca com destaque e a bateria de Sánchez ressoa os pratos, o chimbal e o bumbo, a canção tem um ritmo mais sacolejante. Ao entrar, Zenón no sax alto desenvolve o tema principal da canção e assume a liderança nos caminhos da melodia. Nessa faixa, o saxofonista pode mostrar mais velocidade e capacidade de improvisação, o que não é tão evidente em outros momentos do álbum, uma vez que a marca de Zenón é o seu estilo suave e altamente melódico.

Mesmo sem contar com instrumentos típicos da música porto-riquenha, o quarteto de Miguel Zenón conseguiu transpor toda a musicalidade e festividade da música caribenha para o seu jazz. Jíbaro é um trabalho repleto de qualidade que agradará os fãs de jazz latino. Zenón é um importante nome no saxofone alto neste século XXI, pois seu estilo suave e melodioso não o fixa como um músico conservador e tampouco inovador.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Miguel Zenón: saxofone alto;
Luis Perdomo: piano;
Hans Glawischnig: baixo;
Antonio Sánchez: bateria.

Faixas de Jíbaro:
01. Seis Cinco [Zenón] 5:45
02. Farjardeño [Zenón] 6:53
03. Punto Cubano [Zenón] 8:07
04. Aguinaldo [Zenón] 7:29
05. Chorreao [Zenón] 5:54
06. Enramada [Zenón] 6:11
07. Villarán [Zenón] 9:09
08. Llanera [Zenón] 6:18
09. Mariandá [Zenón] 5:47
10. Jíbaro [Zenón] 7:30

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

A estranha libertação de Dave Douglas

Lançado em 2004 pela gravadora Bluebird/RCA, Strange Liberation do trompetista Dave Douglas traz, além dos músicos habituais de seu quinteto, o guitarrista Bill Frisell como convidado. A adição deste é de grande importância para a qualidade do álbum, uma vez que muitas passagens foram pensadas para a guitarra como protagonista e não meramente como um incremento para acompanhar os sopros ou o Fender Rhodes. Por sua diversidade entre as vertentes do jazz, qualquer pessoa interessada em conhecer mais a sonoridade desenvolvida no século XXI deve ouvir o trabalho de Douglas e este álbum é uma boa dica para começar (ou continuar).

A primeira faixa do álbum é “A Single Sky”, uma canção curta com pouco mais de 2 minutos, que introduz o ouvinte à sonoridade do sexteto. Aí estão pontos altos que serão muito bem explorados em todo o álbum, como o baixo bem marcado de James Genus, os duetos bem arranjados entre o trompete de Dave Douglas e o sax tenor de Chris Potter, a guitarra de Bill Frisell surgindo como alternativa aos sopros. Apesar de curta, essa canção é repleta de possibilidades de audição, primeiro porque não desenvolve nenhum solo, depois deixa a vontade de querer ouvir mais, o que é subitamente cortado por um decrescendo que vai marcando a saída de Douglas, do Fender Rhodes de Uri Caine até deixar a última nota para as cordas de Frisell.

“Strange Liberation”, por sua vez, tem como destaque inicial o fraseado quase estridente do trompete de Douglas, enquanto a seção rítmica desenvolve um funky jazz cheio de balanço. O dueto entre Douglas e o sax tenor de Potter estabelece uma comunicação cheia de swing, responsável pelo estabelecimento do tema motriz da canção, que é igualmente recriada a seguir no dueto entre a guitarra de Frisell e o baixo de Genus, enquanto Clarence Penn e Caine acompanham tudo na bateria e no Fender Rhodes, respectivamente. Em determinado momento, o Rhodes de Caine deixa o papel de coadjuvante e passa a ser protagonista junto com Douglas e Frisell, sem que o tema principal da canção seja esquecido.

“Skeeter-ism” tem uma sonoridade nostálgica e sentimental, cujos duetos são os pontos de maior destaque. De início Douglas com seu trompete e Potter com seu clarinete baixo definem a direção melódica, enquanto o baixo de Genus e a bateria de Penn dão ritmo à canção. A guitarra de Frisell e o Fender Rhodes de Caine dão seguimento à sessão de ótimos duetos dessa faixa. Certamente esse é um dos pontos altos do álbum, pois essa é uma canção deliciosa de ouvir.

“Just Say This” tem no trompete de Douglas e na guitarra de Frisell as bases de seu som lento e introspectivo. A partir do acompanhamento de Caine, Genus e Penn, os solos de Douglas podem alcançar alturas ainda não buscadas antes e são esses agudos que servem como um belo contraponto ao sax tenor de Potter, que soa como se quisesse dizer belas palavras de amor. Em seguida, Frisell parece tomar conta do mesmo discurso para dar seguimento ao que vinha sendo desenvolvido pelos instrumentos de sopro. Ao tocarem juntos ao final da canção, podemos ter a certeza de quem eles conseguiram dizer – sem uma palavra – o que a composição trazia em seu título.

“Seventeen” é uma canção impetuosa com uma forte razão de ser no bebop. O baixo de Genus é marcado com intensidade e a bateria de Penn dá o ritmo por vezes quase frenético à canção, que se desenrola em solos enérgicos de sax tenor por Potter, de Fender Rhodes por Caine e, claro, de trompete por Douglas.

O diálogo minimalista entre a guitarra de Frisell e o Fender Rhodes de Caine serve como uma introdução ao tema melódico que é desenvolvido em “Mountains from the Train”. Enquanto esses instrumentos mais o baixo e a bateria dão o direcionamento intimista que a canção deve seguir, os sopros contribuem com o que vinha sendo construindo, apenas adicionando mais certeza nos rumos dessa experimentação musical.

“Rock of Billy” é centrada na guitarra de Frisell, que dá início à melodia, que tem prosseguimento com o Fender Rhodes de Caine e o trompete de Douglas. Apesar do título de muitos sentidos e dos primeiros acordes que podem enganar, o que se ouve é um hard bop de ótima qualidade com direito a bons solos como o de sax tenor de Potter e ao ótimo dueto de sopros com as seis cordas de acompanhamento.

O sax tenor de Potter e a guitarra de Frisell tocando em uníssono dão o mote a “The Frisell Dream”, uma canção com sólidas bases alicerçadas no marcante baixo de Genus e na bateria de Penn, cujo ritmo sustenta a melodia suave e ao mesmo tempo cheia de balanço que é conduzida ora pelo trompete de Douglas, ora pela guitarra de Frisell, ora pelo sax de Potter, enquanto os três não se juntam em harmonia para encerrar a canção.

“Passing Through”, com pouco mais de um minuto e meio, parece parte de uma canção descolada de seu contexto. Soa como um recorte desprendido de um princípio, no qual o trompete de Douglas sola pesadamente, enquanto tem o acompanhamento do baixo de Genus e da bateria de Penn que o ajudam a compor a atmosfera introspectiva.

O trompete com surdina de Douglas funciona como um chamado para os demais integrantes do grupo em “The Jones”. Estabelecendo um agradável ritmo com seu baixo, Genus proporciona, em conjunto com a bateria de Penn e o Fender Rhodes de Caine, um ambiente que permite o desenvolvimento de duetos muito bem articulados entre trompete e sax tenor, bem como o solo empolgante de teclado.

“Catalyst” encerra o álbum com uma forte referência ao fusion, uma vez que o baixo elétrico de Genus, a guitarra de Frisell e o Fender Rhodes de Caine se juntam à bateria de Penn para reviver as bases da sonoridade jazzística dos anos 1970. Com esse fundo, o que temos são solos livres e energizantes de sax tenor por parte de Potter e de trompete por Douglas.

Strange Liberation é um álbum multifacetado que percorre as muitas vertentes do jazz para criar a sua identidade. Além do talento de Dave Douglas como compositor e intérprete, que já recebeu o elogio (e ao mesmo tempo a pesada responsabilidade) de ser o trompetista que mais soa como Miles Davis atualmente, este disco tem um importante acréscimo ao contar com o músico convidado Bill Frisell, um dos principais guitarristas vivos do jazz, além do ótimo baixista James Genus que deixou sua participação marcada com louvor nas onze faixas desse álbum. Douglas é um nome que faz a diferença no jazz do século XXI, e o seu trabalho ajuda a definir rumos para a sonoridade do gênero.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Dave Douglas: trompete;
Bill Frisell: guitarra;
Chris Potter: saxofone tenor, clarinete baixo;
Uri Caine: Fender Rhodes;
James Genus: baixo acústico e elétrico;
Clarence Penn: bateria, percussão.

Faixas de Strange Liberation:
01. A Single Sky [Douglas] 2:05
02. Strange Liberation [Douglas] 8:05
03. Skeeter-Ism [Douglas] 6:00
04. Just Say This [Douglas] 6:33
05. Seventeen [Douglas] 8:40
06. Mountains from the Train [Douglas] 5:15
07. Rock of Billy [Douglas] 5:57
08. The Frisell Dream [Douglas] 3:56
09. Passing Through [Douglas] 1:36
10. The Jones [Douglas] 4:28
11. Catalyst [Douglas] 5:08

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A temporada de mudanças de Brian Blade

Oito anos se passaram entre os lançamentos do álbum anterior e deste, Season of Changes, do baterista Brian Blade pela gravadora Verve em 2008. Durante esse período, Blade esteve ocupado tocando como sideman com Bob Dylan, Joni Mitchell, Kenny Garrett, Joshua Redman, Sam Yahel, Wayne Shorter. Ao retomar a carreira como líder, o baterista chamou antigos companheiros e renomeou o grupo para The Fellowship Band. O resultado está gravado neste ótimo álbum que consegue em alguns momentos ser jazz de alta classe e em outros momentos nem jazz ser. Musicalmente multi-influenciado, Blade nos apresenta um material inédito de ousadia e inventividade que o consolida como compositor e intérprete. Acredito que apenas o tempo e o desenrolar do século XXI serão capazes de dar o verdadeiro significado a Season of Changes.

O baixo de Chris Thomas tocando a mesma nota e a guitarra de Kurt Rosenwinkel deixando lacunas dão a introdução a “Rubilou’s Lullaby”, a primeira faixa do álbum. A bateria de Brian Blade prenuncia a entrada dos demais instrumentos à canção, como o piano de Jon Cowherd, que desempenha importantes papéis na condução e na passagem do sax tenor de Melvin Butler para o clarinete baixo de Myron Walden. A integração entre todos os instrumentos é total, tanto que ritmo e melodia estão muito ligados, tornando as participações de Walden e Butler não em solos, como o habitual no jazz, mas em um elemento em primeiro e segundo plano ao mesmo tempo. A sonoridade do grupo é progressiva e limítrofe ao empurrar as fronteiras do jazz para além.

Melvin Butler no sax tenor e Cowherd no piano estabelecem o motivo da canção “Return of the Prodigal Son”, que se desenvolve em um solo viajante de guitarra de Rosenwinkel, que encontra o solo enérgico de Butler, cuja sonoridade aqui o aproxima do hard bop sessentista e narra os percalços da personagem título. Cowherd restabelece a melodia e ganha o acompanhamento de Walden no sax alto e de Rosenwinkel, que é quem assume o papel principal e retoma o motivo da canção. Ao fundo, Thomas e Blade tem a importante função simbólica de demonstrar os períodos de tranquilidade, no início e no final da canção, cuja parte relata o retorno do filho pródigo, em oposição à parte central, que representa a inquietação traduzida no solo de Butler.

Uma bela e suave melodia é introduzida pelo guitarrista Rosenwinkel em “Stoner Hill”, cujos acordes, acompanhados por Blade na bateria e Thomas no baixo, serão o motivo da canção, no qual tudo se constrói. As entradas de Walden no clarinete baixo e de Cowherd no piano dão continuidade e desenvolvem o tema.

“Season of Changes”, canção que dá nome ao álbum, tem início com o piano solo de Cowherd ditando as bases da canção. A entrada dos demais instrumentos, primeiramente, serve para fazer acompanhamento ao tema iniciado ao piano. Blade na bateria marca a mudança de andamento, que dá mais vivacidade à canção. Cowherd ao piano e Rosenwinkel na guitarra dão o rumo à melodia, enquanto Thomas no baixo e Blade na bateria dão uma precisa marcação do tempo. Os belos solos de sax tenor de Butler e de sax alto de Walden são um dos pontos altos dessa faixa por dar uma cara mais jazzística ao tema progressivo colocado por Cowherd e Rosenwinkel.

“Most Precious One” é na verdade uma longa introdução para a faixa que a sucede, uma vez que o baixo de Thomas tocando sempre a mesma nota tem o acompanhamento do piano de Cowherd fazendo a mesma coisa, até que este desenvolva a melodia, quando ganha o acompanhamento de Blade na bateria. Então, o caminho está prono para a sexta faixa, “Most Precious One (Prodigy)”, que traz Cowherd tocando um Moog e Blade marcando o tempo em sua bateria como se tocasse um rock, enquanto Rosenwinkel completa com um solo viajante em total harmonia com o piano eletrônico. Blade parece ter composto esta canção inspirado na obra do Pink Floyd e de David Gilmour, pois se em outros momentos do álbum ele balançava no limite entre o jazz e o rock progressivo, nesta faixa ele cruzou a fronteira com os dois pés.

“Improvisation” inicia com Walden tocando uma melodia oriental em seu clarinete baixo, quando Cowherd ingressa na canção tocando o pump organ segurando prolongadamente a mesma nota, enquanto muito ao fundo temos o baixo de Thomas tocando a mesma nota. Walden desenvolve o tema inicial e contribui com um belo solo para o álbum, enquanto a canção chega a um crescendo, que se trata, na verdade, de uma introdução para a próxima faixa: “Alpha and Omega”. Como uma continuaçao da canção anteriormente desenvolvida, a atenção se centra sobre o pump organ de Cowherd, tocando como se estivesse em uma igreja, e no lento e misterioso soprar de Walden.

“Omni”, a canção que encerra o álbum, começa com um belo e melodioso dueto entre o sax alto de Walden e o piano de Cowherd, enquanto o baixo de Thomas e a bateria de Blade funcionam como os pés a manter a ave no chão. Nesta bela composição de Blade há espaço para um empolgante dueto entre o sax tenor de Butler e o alto de Walden, além de um solo reflexivo de muita beleza no piano de Cowherd, que dá ponto final a uma adorável canção.

Intrigante, desafiador, mas sobretudo um ótimo álbum. Em alguns momentos, Season of Changes parece como um primeiro passo em direção a algo novo. Se Brian Blade prosseguir trabalhando essa sonoridade, algo diferente pode surgir no mundo do jazz neste princípio de século XXI. Para abril de 2009, Blade promete o lançamento de um álbum novo, porém não tocando bateria, mas fazendo sua estréia como cantor e guitarrista. Resta-nos esperar.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Brian Blade: bateria;
Jon Cowherd: piano, pump organ, Moog, Wurlitzer;
Kurt Rosenwinkel: guitarra;
Myron Walden: saxofone alto, clarinete baixo;
Melvin Butler: saxofone tenor;
Chris Thomas: baixo.

Faixas de Season of Changes:
01. Rubylou's Lullaby [Blade] 4:38
02. Return of the Prodigal Son [Cowherd] 8:54
03. Stoner Hill [Blade] 3:19
04. Season of Changes [Cowherd] 12:00
05. Most Precious One [Blade] 2:50
06. Most Precious One (Prodigy) [Blade] 3:11
07. Improvisation [Cowherd, Walden] 3:56
08. Alpha and Omega [Blade] 1:28
09. Omni [Blade] 6:10

Ouça um pouco do álbum no site da gravadora Verve.

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Veja o vídeo de Brian Blade & The Fellowship Band tocando um trecho de “Return of the Prodigal Son”:

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O tempo presente de James Carter

Lançado em 2008 pela gravadora Emarcy, o álbum Present Tense é obra do multi-instrumentista James Carter, responsável por tocar os saxofones soprano, tenor e barítono, além de flauta e clarinete baixo. Assim como procura diferentes sonoridades nos instrumentos que toca, Carter explora diferentes facetas do jazz, tais como o cool, o hard bop, a bossa e outros. O jazz do século XXI tem em Carter uma figura de destaque e um artista de alto nível.

O álbum inicia com “Rapid Shave”, um hard bop com mudanças de andamento que principia com um ritmo acelerado puxado pelo baterista Victor Lewis e pelo baixista James Genus. O trompetista Dwight Adams injeta bastante energia à melodia e é também quem determina o motivo da canção. O pianista D.D. Jackson dá seguimento e mantém o ritmo acelerado, enquanto prepara o caminho para o sax barítono de James Carter, que primeiramente diminui a velocidade da canção para depois ingressar em uma nova aceleração tendo a seção rítmica como parceira nesse intento. O solo de baixo de Genus desacelera a canção mais uma vez, mas não por muito tempo, pois Lewis prenuncia o encerramento com todos os instrumentos tocando com muita energia.

Em “Bro. Dolphy”, composição de Carter em homenagem a Eric Dolphy, temos uma canção com dois momentos distintos após uma breve introdução. Primeiro ouve-se um cool jazz com belos solos de clarinete baixo de Carter, que por vezes ganha o acompanhamento do trompete de Adams, além de um dedilhado elegante de Jackson ao piano. Depois, a partir de uma ruptura marcada nos pratos da bateria de Lewis, a canção se transforma em um avant-garde com direito a improvisações livres que abruptamente dão fim à faixa.

O sax soprano de Carter em “Pour Que Ma Vie Demeure”, composição de Django Reinhardt, dá um clima romântico à canção, enquanto o baixo de Genus e a bateria de Lewis perpetuam um ar nostálgico.

“Sussa Nita” tem um ritmo bem balanceado que é desenvolvido por meio do baixo de Genus, da bateria de Lewis, da guitarra de Rodney Jones e da percussão de Eli Fountain. Com esse fundo, Carter pode solar com liberdade em seu sax tenor. O resultado é uma canção com ritmo cadenciado com direito a bons solos de guitarra, sax e piano.

“Song of Delilah” tem uma longa introdução, na qual o sax soprano de Carter toca uma melodia com clara influência oriental. Depois disso, a canção se assenta em um ritmo constante e bem marcado que possibilita um belo dueto entre o sax tenor de Carter e o trompete de Adams.

Em “Dodo’s Bounce”, a seção rítmica com a bateria de Lewis, o baixo de Genus e a guitarra de Jones trabalha para que a flauta de Carter e o trompete de Adams possam desenvolver o tema recorrente da melodia. Nesse ínterim ainda há espaço para os solos de bateria e guitarra, que se integram aos sopros.

“Shadowy Sands” é uma agradável canção que embala o ouvinte com seu ritmo lento e constante, que é acrescido em malemolência e qualidade pela percussão de Fountain. Carter encontra o caminho perfeito para solar docemente com seu clarinete baixo em uma execução sem surpresas e linear, que é seguida pelo trompete de Adams. O dueto final entre os sopros é muito bonito por explorar muito bem a diferença entre os timbres dos instrumentos nos mesmos fraseado.
O ritmo acelera bastante em “Hymn of the Orient”, canção cuja execução de Lewis, Genus e Jackson proporciona duetos e solos cheios de vivacidade por parte do trompete de Adams e do sax barítono de Carter.

Como o título não faz questão alguma de esconder, “Bossa J.C.” é uma canção ao estilo jazzy bossa nova composta por Carter. A guitarra de Jones e a percussão de Fountain dão ao trio Lewis, Genus e Jackson o tom ideal para soar similar a Jobim, a clara influência para o compositor. Os solos de sax tenor de Carter e de trompete de Adams são um tanto conservadores e permanecem recorrentes ao tema da melodia.

O trompete com surdina e o sax barítono dão um lindo contraste ao dueto inicial de “Tenderly”, a canção que encerra o álbum. O clima cool jazz é imperativo nesta faixa, na qual a seção rítmica limita-se a fazer o acompanhamento para que Carter e Adams definam os rumos da melodia.

Tocando cinco instrumentos em Present Tense, James Carter concebeu um ótimo álbum que transita por diferentes estilos do jazz. Ao longo de sua carreira, Carter lançou vários CDs, um diferente do outro, até esse que retoma, de certo modo, a sonoridade que o fez figurar como uma das maiores promessas do jazz no início da década de 1990. Sua habilidade e destreza como multi-instrumentista faz de James Carter uma importante figura para a música atual e uma realidade que abrilhanta o jazz do século XXI.

Todos os músicos que participaram do álbum:
James Carter: sax soprano, sax tenor, sax barítono, flauta e clarinete baixo;
Dwight Adams: trompete e flugelhorn;
D.D. Jackson: piano;
James Genus: baixo;
Victor Lewis: bateria;
Rodney Jones: guitarra (4, 6 e 9);
Eli Fountain: congas e percussão (4, 7 e 9).

Faixas de Present Tense:
01. Rapid Shave [Burns] 7:31
02. Bro. Dolphy [Carter] 7:15
03. Pour Que Ma Vie Demeure [Reinhardt] 5:08
04. Sussa Nita [Carter] 6:05
05. Song of Delilah [Evans, Livingston, Young] 5:12
06. Dodo's Bounce [Marmarosa] 6:05
07. Shadowy Sands [Jones] 8:31
08. Hymn of the Orient [Gryce] 4:26
09. Bossa J.C. [Carter] 4:45
10. Tenderly [Gross, Lawrence] 8:18

Ouça um pouco do álbum no site Last.fm.

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Veja este vídeo com a música “Pour Que Ma Vie Demeure”:

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

One For All quer saber o que está acontecendo

Lançado em 2007 pela gravadora japonesa Venus, o álbum What’s Going On? do grupo One For All reúne seis grandes instrumentistas do jazz atual, tendo no saxofonista Eric Alexander a figura de maior destaque. Jim Rotondi e Steve Davis, trompete e trombone, respectivamente completam a linha de frente dos instrumentos de sopro, enquanto David Hazeltine, Joe Farnsworth e John Webber formam a seção rítmica. Desenvolvido de maneira paralela às carreiras dos seis músicos, o grupo encontrou neste álbum uma maneira de se expressar jazzisticamente através de composições da soul e da black music. O resultado é um CD de muita qualidade de transita pelo swing e pelo hard bop.

A faixa de abertura, “What’s Going On?”, que também dá nome ao álbum, começa em ritmo forte e acelerado capitaneado pelo baixo de John Webber, pela bateria de Joe Farnsworth e pelo piano de David Hazeltine. A inclusão do trompete de Jim Rotondi, do sax tenor de Eric Alexander e do trombone de Steve Davis dá bastante balanço à canção. Apesar de ser um sexteto, o grupo quase soa como uma big band, pois os três instrumentos de sopro tocam muito bem alinhado permitindo ao solista uma forte sustentação sonora que ainda tem o apoio de uma seção rítmica exemplar.

“How Sweet It Is (To Be Loved By You)” é uma canção cheia de swing. De início o solo de sax tenor de Alexander sustentado por Davis e Hazeltine dá a direção musical, que é seguida no solo de trombone de Davis e prossegue, posteriormente, no solo de trompete de Rotondi. Hazeltine que vinha fazendo o acompanhamento assume a condução melódica até os sopros, encabeçados por Alexander, retomarem a frente em execuções cheias de balanço. Estruturalmente a canção é simples, mas seu swing é envolvente. O difícil é não se deixar levar pelo ritmo e pela melodia.

O ritmo acelerado puxado pela bateria de Farnsworth e pelo baixo de Webber em “Let’s Stay Together” dá a direção aos demais instrumentos. Alexander sola com bastante liberdade nessa faixa, bem como Rotondi que toca suas notas com bastante rapidez. Nesta versão hard bop, todo o grupo mostra muita coesão, mas o destaque maior ainda é para o saxofonista responsável pelo motivo da canção.

“Reasons” tem um quê de bossa, principalmente em função do ritmo malemolente produzido por Farnsworth e Webber. A batida constante é a sustentação para o desenvolvimento dos solos de Alexander, Rotondi, Davis e Hazeltine. Quando todos os instrumentos estão tocando juntos, novamente cabe ao saxofonista a condução da melodia. O sexteto consegue encontrar a medida perfeita entre a bossa e a balada para realizar uma canção com um swing muito agradável. Apenas siga no embalo.

“Golden Lady” explora muito bem os recursos do sexteto, uma vez que os instrumentos de sopro progridem em conjunto e trocam os papéis de condutor da melodia e de acompanhamento com bastante desenvoltura. Ao assumir a frente melódica com seu piano, Hazeltine dá início à sessão de solos, que prossegue com o trompete de Rotondi e o sax tenor de Alexander. Quando todos voltam a tocar juntos o que se tem é uma deliciosa jam session cheia de balanço, que mesmo com o atravessamento de Davis no final não é afetada.

A marcação rítmica do baixo de Webber e da bateria de Farnsworth em “For the Love of You” dão ao piano de Hazeltine o espaço para trilhar uma linha melódica cheia de swing, que é enriquecida pelos sopros. Mais uma vez o destaque é a integração do grupo, no qual cada solista tem a certeza de que a melodia terá um seguimento coerente, enquanto a seção rítmica dá a sustentação ao trabalho do sexteto, principalmente pela precisão e competência de Farnsworth.

“Stop! In the Name of Love” tem um cadenciamento mais pop com clara influência da black music, que dá ao trompete de Rotondi e ao trombone de Davis o destaque maior. Claramente a melodia cresce quando há a participação dos dois músicos citados, porque ambos são responsáveis pelo refrão em uma canção naqual a marcação estrofe e refrão é bem evidente. Embora não tenha sido composta como um jazz, a versão do One For All funciona e empolga.

“Moon Blue” tem um tema principal conduzido pelo trio Rotondi, Alexander e Davis, que intercalado pelos solos ora swingado de Alexander, ora enérgico de Rotondi, ora cheio de balanço de Davis, ora acelerado de Hazeltine, sempre volta para estabelecer os elos entre as diferentes partes da canção. Ao fundo Farnsworth e Webber estão a estabelecer a medida exata de onde cada solista pode ir. Com essa seção rítmica, certamente, eles podem ir em segurança.

A nona e última canção do álbum, “Betcha By Golly, Wow”, tem uma levada característica da Swing Era e dá oportunidade a todos os músicos para desenvolver as suas sonoridades em solos ou duetos. A melodia simples é de fácil acompanhamento pelo ouvinte e, talvez, esse seja um de seus trunfos.

A coesão entre os músicos do One For All é a principal razão para o grupo soar tão bem. Ainda que a fama maior recaia no saxofonista Eric Alexander, que é com razão um dos principais nomes do sax tenor atual, Joe Farnsworth e Jim Rotondi também são a alma desse sexteto. Ainda assim, como não valorizar o excelente trabalho de David Hazeltine, John Webber e Steve Davis? Ao reunir tantos nomes importante do jazz do século XXI, o One For All é uma seleção de ótimos instrumentistas, que levam em paralelo bem-sucedidas carreiras como líderes e sidemen. What’s Going On? é altamente recomendável para quem deseja ouvir músicos de primeira qualidade em um trabalho com cara de reunião de amigos.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Eric Alexander: saxofone tenor
Jim Rotondi: trompete
Steve Davis: trombone
David Hazeltine: piano
John Webber: baixo
Joe Farnsworth: bateria

Faixas de What’s Going On?:
01. What's Going On? [Benson, Cleveland, Gaye] 6:50
02. How Sweet It Is (To Be Loved by You) [Dozier, Holland] 5:23
03. Let's Stay Together [Green] 8:06
04. Reasons [Bailey, White] 6:53
05. Golden Lady [Wonder] 5:51
06. For the Love of You [Isley] 6:24
07. Stop! In the Name of Love [Dozier, Holland] 5:31
08. Moon Blue [Wonder] 4:59
09. Betcha by Golly, Wow [Bell, Creed] 7:42

Ouça um pouco do álbum no site da gravadora Venus.

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sábado, 3 de janeiro de 2009

As pequenas coisas de Ben Allison correm o mundo

Lançado em janeiro de 2008 pela gravadora Palmetto, o álbum Litte Things Run the World do baixista Ben Allison é mais um ponto positivo na bem-sucedida carreira deste músico vanguardista. Cada solo escrito por Allison para os instrumentos de sopro ou cordas neste álbum não é óbvio, o que garante um grande destaque ao trompetista Ron Horton que é responsável por algumas das melhores passagens nas oito canções do CD. Sem Horton, Little Things Run the World perderia muito do seu brilho.

“Respiration”, a primeira faixa do álbum, traz um belo trabalho de entrosamento entre o baixo de Ben Allison, a guitarra de Steve Cardenas e a bateria de Michael Sarin, pois conseguem ditar a direção rítmica da canção e conferem uma sonoridade com um quê de espanhola à canção, enquanto o trompete de Ron Horton sola entre fraseados curtos até que as seis cordas de Cardenas assumam a frente da melodia. Destaque para o dueto final de trompete e guitarra.


Em “Little Things Run the World”, canção que dá nome ao álbum, Allison e Sarin tomam total controle do ritmo e do balanço, o que permite liberdade para os solos de Horton e Cardenas, que ainda ganham a companhia de Michael Blake no saxofone tenor. Nesse momento, a canção atinge um ápice no melhor estilo hard bop, no qual todos os instrumentos conseguem juntos construir uma unidade muito forte.

A sonoridade latina que abre “Four Folk Songs” prenuncia uma composição peculiar, cuja primeira parte privilegia a percussão e o trompete. Em seguida, é a guitarra quem conduz uma melodia suave, enquanto o trompete ensaia algo como um mantra, que se desfaz em um balanço agradável que nasce a partir de um crescendo do baixo, da bateria e do próprio trompete. Nesse momento é a guitarra que passa a conduzir a melodia até iniciar um novo dueto com o trompete, que termina intensa e bruscamente. As várias mudanças de andamento dessa canção são seus principais atrativos, dando a Allison um importante destaque como compositor e a Horton como intérprete.

Allison, Sarin e Cardenas dão a “Language of Love” uma deliciosa cadência de quem vai chegando aos poucos ao melhor estilo cool. Horton adiciona o seu trompete ao grupo e mntém o clima já desenvolvido. A sequência é uma deliciosa balada com um ar de mistério e ótimos solos de baixo e trompete. Interpreto os fraseados finais da guitarra de Cardenas e do trompete de Allison como os gracejos e galanteios dos amantes ao se conhecerem.

“Roll Credits” é uma ótima canção centrada parte nos olos suaves e expansivos de Horton no trompete, parte nos solos viajantes de Cardenas. A sustentação, porém, está no bom entrosamento do baixo de Allison e da bateria de Sarin que dão um gostoso balanço à canção. Alguém mais notará semelhança de alguns acordes com o standard “Speak Low” nesta faixa?

“Blowback” explora o contraste entre o ritmo forte e bem marcado pelo baixo de Allison e a bateria de Sarin com a melodia suave e viajante construída nos solos de guitarra de Cardenas, no trompete de Horton e no saxofone soprano de Blake. O resultado é um som que segue em progressão incorporando cada instrumento em uma unidade harmônica, na qual fica muito claro todo o processo de criação (início), a soma dos elementos constituídos pela seção rítmica e pela base melódica em um arranjo uniforme (meio) e a fragmentação que muda o andamento da canção e prepara o seu fim.

A versão com grande influência blueseira de “Jealous Guy”, composta por John Lennon, explora muito bem o dueto entre o baixo de Allison e o trompete de Horton. É curioso que nesta faixa do álbum, que não é de autoria de Allison, ele tenha mais liberdade para solar.

Na última faixa do álbum, “Man Size Safe”, o baixo de Allison destaca-se ao marcar quase hipnoticamente o ritmo, do início ao fim da canção, usando a mesma base. Enquanto isso, cada um a seu turno, os instrumentos responsáveis por conduzir a melodia travam empolgantes duetos com o baixo. Após os duetos de Allison e Horton, Allison e Cardenas, e Allison e Blake, ainda há lugar para o solo de Sarin, que religa o fim com o início da canção.

Com este álbum, Ben Allison prova mais uma vez porque é um músico de destaque na atual cena jazzística de Nova York, afinal suas composições são empolgantes, fogem da obviedade e acrescentam um importante valor artístico ao jazz do século XXI.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Ben Allison: baixo, violão;
Ron Horton: trompete, flugelhorn;
Steve Cardenas: guitarra;
Michael Sarin: bateria;
Michael Blake: saxofone tenor (2, 8), saxofone soprano (6).

Faixas de Little Things Run the World:
01. Respiration [Allison] 5:55
02. Little Things Run the World [Allison] 5:35
03. Four Folk Songs [Allison] 5:42
04. Language of Love [Cardenas] 8:22
05. Roll Credits [Allison] 6:09
06. Blowback [Allison] 7: 13
07. Jealous Guy [Lennon] 7:20
08. Man Size Safe [Allison] 7:00

Ouça um pouco do álbum no site Lastfm.com.

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Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Respiration”:




Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Four Folk Songs”:




Veja o vídeo de Ben Allison tocando “Language of Love”:

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O piano em turbilhão de Matthew Shipp

Lançado em 2007 pela gravadora Thirsty Ear, Piano Vortex marca 20 anos da primeira gravação do pianista Matthew Shipp como líder. Se anteriormente o uso de efeitos eletrônicos vinha sendo corriqueiro em suas gravações, neste álbum Shipp deixa com que apenas o piano, o baixo e a bateria sejam responsáveis pela sonoridade do grupo. Acompanhado pelo baterista Whit Dickey e pelo baixista Joe Morris (mais conhecido como guitarrista), Shipp apresenta oito composições originais de um jazz vanguardista e desafiador. Para saber alguns dos rumos do jazz neste século XXI é bom manter um olho e dois ouvidos em Matthew Shipp.

A faixa-título, “Piano Vortex”, que abre o álbum, começa com um denso dedilhar de Matthew Shipp acompanhado pelo baixo bem marcado de Joe Morris, que confere bastante sobriedade ao trabalho. A melodia não é nem um pouco linear, uma vez que o piano experimenta diversos tons na construção do som e por vezes, logo após encontrar uma nota mais simples e melodiosa, esta é abandonada por algo mais elaborado. Whit Dickey na bateria e Morris limitam-se ao acompanhamento e por isso mesmo contribuem decisivamente para a identidade densa da canção.

“Key Swing” é a faixa mais acessível do álbum. Tudo parece muito simples nesta canção e talvez esse seja o motivo de tudo funcionar tão bem. O ritmo ditado por Morris e Dickey é fácil de acompanhar, bem como a melodia cheia de balanço puxada por Shipp. Ainda que essa canção seja curta, a melodia pode ficar muito tempo tocando dentro da sua cabeça.

A introdução de Morris usando um arco no baixo em “The New Circumstance” nos prepara para mais uma canção densa, na qual Shipp faz uso de uma técnica lenta e cheia de lacunas, que vai acelerando aos poucos até ganhar forma e dominar por completo a sonoridade do trio. Com precisão Dickey acompanha o piano, reforçando o peso da melodia.

“Nooks and Corners” usa intrincadas notas extraídas do piano de Shipp em um swing frenético que encontra o bop e ocasiona um peculiar andamento à canção.

Em “Sliding Through Space” cada instrumento vai se mostrando aos poucos, como quem quer ganhar o seu espaço e construir uma história. O baixo com arco de Morris e a bateria de Dickey surgem em par ditando um ritmo complexo e, mais uma vez denso. O piano de Shipp, que, inicialmente, parece contribuir para uma desarmonia, depois assume o papel de conduzir uma melodia intensa que contrasta com o ritmo crescente e quase sombrio de Morris e Dickey. Essa é uma ótima amostra de jazz de vanguarda, que poderia muito bem ilustrar uma cena de crescente suspense em algum filme hollywoodiano.

“Quivering with Speed” traz um ritmo acelerado puxado por Dickey e Morris, enquanto Shipp conduz a melodia de modo igualmente rápido, construindo uma peça de difícil acesso que precisa ser ouvida várias vezes para que o papel de cada instrumento seja bem compreendido no contexto da canção. A complexidade e a técnica de Shipp nesta faixa são desafios para o ouvinte.

“Slips Through the Fingers” é uma peça de piano solo, na qual Shipp explora os registros mais baixos de seu instrumento. Esta é uma faixa bem intimista que se revela lentamente a cada nova audição.

A última canção, “To Vitalize”, adiciona swing ao trabalho do trio, uma vez que Dickey e Morris ditam o ritmo cheio de balanço, sobre o qual Shipp constrói a melodia. O resultado é um piano que avança além do swingar e procura outras linguagens para se expressar. Essa é a faixa do álbum em que Shipp mais se aproxima de uma de suas principais influências: Thelonious Monk. Por vezes tocando repetidamente a mesma nota, deixando lacunas ou acelerando a melodia, o pianista demonstra muita técnica e uma ótima capacidade de improvisação, bem como uma integração muito afinada com a seção rítmica, como fica claro no solo final de Morris, no qual piano e baixo conseguem uma ótima integração e se tornam instrumentos complementares e contínuos.


Neste álbum, Matthew Shipp abriu mão de recursos eletrônicos para gravar no conhecido esquema de trio piano-baixo-bateria apenas com composições próprias. Shipp, uma das lideranças do jazz atualmente, mostra com este trabalho a sua grande qualidade como intérprete e compositor em peças complexas com andamentos que desafiam os ouvintes. Piano Vortex é recomendado para quem já tem mais afinidade com o jazz de vanguarda e não espera melodias fáceis para cantarolar ou assoviar.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Matthew Shipp: piano;
Joe Morris: baixo (exceto faixa 07);
Whit Dickey: bateria (exceto faixa 07).

Faixas de Piano Vortex:
01. Piano Vortex [Shipp] 10:26
02. Key Swing [Shipp] 3:21
03. The New Circumstance [Shipp] 9:11
04. Nooks and Corners [Shipp] 4:10
05. Sliding Through Space [Shipp] 8:54
06. Quivering with Speed [Shipp] 6:38
07. Slips Through the Fingers [Shipp] 3:17
08. To Vitalize [Shipp] 7:13

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