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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Gilfema + 2

Lançado em outubro de 2008 pela gravadora ObliqSound, o álbum Gilfema + 2, reúne competentes músicos de diferentes nacionalidades como o guitarrista Lionel Loueke, do Benin; o baixista Massimo Biolcati, sueco de criação, mas nascido na Itália; e o baterista Ferenc Nemeth, da Hungria. Esse trio forma o Gilfema, cujo nome incorpora parte dos nomes de seus integrantes: Lionel GILles Loueke, FErenc Nemeth e MAssimo Biolcati. Adicionando as sonoridades de suas origens ao jazz, o grupo convidou mais dois músicos para esse trabalho: a clarinetista israelense Anat Cohen e o clarinetista baixo americano John Ellis. Entre o folk, a world music e o jazz, o Gilfema é um grupo criativo que explora muito bem o talento de seus intérpretes/compositores em novas canções, que se por um lado pode confrontar o gosto jazzístico dos mais puristas, por outro lado desperta o interesse dos fãs um pouco mais receptivos a ritmos africanos e inventivos em geral.

Em "Twins", a primeira faixa do álbum, o tempo marcado pelo baterista Ferenc Nemeth, pelo baixista Massimo Biolcati e pela guitarra rítmica de Lionel Loueke evidenciam a influência da música africana no som do grupo. O canto repetitivo de Loueke no idioma fon, natural do Benin, no início da canção é quase hipnótico, enquanto com sutileza Anat Cohen estabelece uma linha melódica com seu clarinete. A partir da mudança de andamento que é dada à canção, o ritmo ganha mais liberdade e balanço, liberando Loueke para, além de cantar, também solar com sua guitarra, bem como para fazer um rico dueto com o clarinete baixo de John Ellis.

"Question of Perspective" introduz um tema principal executado por Loueke na guitarra e em vocalizações, que ganha a adição de Biolcati no baixo, de Nemeth na bateria e de Ellis no clarinete baixo. A partir desse mote desenvolve-se a melodia tal como se ouve no delicioso solo de Loueke, tocado com muita clareza em uma perspectiva absolutamente linear.

A musicalidade africana volta ao primeiro plano em "Your World", cuja condução do ritmo por Biolcati no baixo e por Nemeth na bateria remetem a um balanço que aproxima o som do grupo a uma sonordade com um quê de reggae. A guitarra de Loueke na maior parte da canção se integra à base rítmica, enquanto o clarinete de Cohen assume a frente da condução melódica em solos ou em bem arranjados duetos com a guitarra. É difícil não se deixar contagiar pelo ritmo e pelo canto de Loueke, que são a cara dessa canção.

Possivelmente "Salomé" com a guitarra com efeito wah-wah de Loueke, o clarinete baixo melodioso de Ellis, o baixo exuberante de Biolcati e a precisão de Nemeth na bateria seja a melhor faixa de todo o álbum. A canção foi construída de modo que os instrumentos de cordas e de sopro assumam em determinado momento o primeiro plano e que se apóiem mutuamente no desenvolvimento do som. O resultado é um primoroso exercício jazzístico de aliar a suavidade de Ellis com a impulsividade de Loueke, que em determinado momento faz sua guitarra soar quase como um teclado, enquanto Biolcati desloca o seu baixo do fundo para o primeiro plano do estúdio de gravação.

O canto de Loueke e a ocarina tocada por Ellis são os principais destaques de "Lonlon Gnin", outra faixa na qual a musicalidade originária da África recebe os principais holofotes. O baixo quase hipnótico de Biolcati e a marcação rítmica precisa de Nemeth formam o plano de fundo para que a canção se desenrole naturalmente.

"Morning Dew" inicia com um ritmo repetitivo marcado por Nemeth, enquanto o clarinete baixo de Ellis toca espaçadamente a mesma nota, aos quais junta-se primeiro o baixo de Biolcati e depois a guitarra de Loueke. A canção tem um desenvolvimento lento, que vai ganhando impulso com a reintrodução do clarinete baixo de Ellis, que vai direcionando a melodia a ser seguida. O tema que ganha vida é bastante bonito e tocado com muita clareza nos solos e nos duetos de guitarra e clarinete.

"Festa" tem um ritmo cheio de balanço que lembra o samba, porém conduzido pelos tom-tons, pela caixa, pelo surdo e pelo chimbal executados por Nemeth, bem como pelo baixo de Biolcati fornecendo a cobertura para o desenvolvimento da melodia pela guitarra e pelo canto de Loueke no idioma fon.

O ritmo acelerado, quase descompassado, introduzido pela bateria de Nemeth em "Cove" induz Ellis a tocar o seu clarinete baixo cada vez mais rápido para estabelecer a segunda parte da canção, que é estruturalmente mais complexa, provocando em um determinado momento um contraponto interessante entre a guitarra de Loueke e o baixo de Biolcati, como se os músicos estabelecessem um desafio mútuo. A sonoridade se constitui em uma sessão de freebop repleta de criatividade e energia. A forma abrupta como a canção é encerrada denuncia um grupo versátil que tem muito a explorar nessa linguagem jazzística. Certamente essa faixa conquista o status de um dos pontos altos do álbum.

"One's Mind's Eye" é uma balada de ritmo suave conduzido por Nemeth repercutindo a caixa de sua bateria com baquetas tipo vassourinha, enquanto Cohen com seu clarinete, Loueke com sua guitarra e Ellis com seu clarinete baixo assumem o papel de desenvolver a melodia. A medida que a canção começa a crescer em intensidade e Nemeth passa fazer uso maior dos pratos de seu instrumento, o baixo de Biolcati também vai ganhando mais espaço e se destacando dentro da obra. O destaque maior, porém, fica para a forma como a melodia é trabalhada em função do timbre diferenciado dos sopros e das seis cordas.

A linguagem do bop volta a ser falada pelo grupo em "Master of the Obvious", uma canção na qual o clarinete baixo de Ellis e o clarinete de Cohen travam um diálogo cheio de balanço, enquanto o baixo de Biolcati e a bateria de Nemeth proporcionam o ritmo swingado necessário para a harmonia da canção. A introdução da guitarra com wah-wah de Loueke ganha o primeiro plano na execução dessa faixa, uma vez que a sua entrada altera o dinamismo do trabalho e produz um efeito positivo refletido na força que a canção ganha perto de seu final.

O trio Gilfema tem recebido ótimas críticas nas publicações especializadas em jazz, mesmo se tratando de um projeto paralelo, que infelizmente não deverá ter continuidade, uma vez que a carreira solo de Lionel Loueke está em seu melhor momento e tanto o baixista quanto o baterista integram o grupo do guitarrista. O mérito do Gilfema é dar vazão às composições de Massimo Biolcati e de Ferenc Nemeth, afinal o grupo de Loueke toca apenas composições próprias deste, que foi escolhido como "Estrela em Ascensão (Rising Star)" na categoria guitarrista na premiação de 2008 da revista DownBeat. A adição dos sopros ao trio original ocasionou mais versatilidade à sonoridade do grupo, uma vez que a guitarra ganhou mais opções para trabalhar em belos e agradáveis duetos. Por essas razões, Gilfema + 2 é um álbum altamente recomendável.

Todos os músicos que participaram do álbum:
Lionel Loueke: guitarra, vocais;
Massimo Biolcati: baixo
Ferenc Nemeth: bateria
Anat Cohen: clarinete
John Ellis: clarinete baixo, ocarina

Faixas de Gilfema + 2:
01. Twins [Loueke] 5:20
02. Question of Perspective [Nemeth] 4:13
03. Your World [Loueke] 5:36
04. Salomé [Biolcati] 6:04
05. Lonlon Gnin [Loueke] 3:45
06. Morning Dew [Nemeth] 6:28
07. Festa [Nemeth] 4:23
08. Cove [Loueke] 5:22
09. One's Mind's Eye [Biolcati] 7:19
10. Master of the Obvious [Biolcati] 4:13

Veja o vídeo do Gilfema tocando "Question of Perspective":


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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O lugar e o tempo de Anat Cohen

Nascida em Tel Aviv, Israel, a saxofonista tenor, soprano e clarinetista Anat Cohen é figura conhecida e celebrada na cena jazzística de Nova York desde 1999. Entusiasta da música brasileira, colombiana e afro-cubana, ela estudou e tocou com vários músicos sul-americanos e conseguiu integrar com graça e naturalidade essas influências em seu jazz. Em seu primeiro CD, Place & Time, lançado em 2005 pela gravadora Anzic, Anat Cohen demonstra seu amadurecimento musical e qualidades artísticas apuradas.

“Place & Time”, a canção quenome ao álbum, é a faixa de abertura do CD, que tem sua bela melodia muito bem delineada pelo elegante sopro de Anat Cohen em seu sax tenor, enquanto muito bem acompanhada pelo não menos distinto e delicado pianista Jason Lindner. Ótima escolha para faixa de abertura.

“The 7th of March” encontra lugar em uma bela fusão de jazz com tango e percussão e latinidade! O melhor dessa mistura é que tudo soa muito bem e de maneira muito harmoniosa. O baixo bem marcado de Ben Street casa certo com a bateria de Jeff Ballard para juntos estabelecerem a seção rítmica que engrandece o piano de Lindner e ganha apurado senso estético graças a Anat.

A fusão de estilos musicais continua no belo tango “Veinte Años” composto pela cubana Maria Teresa Vera, no qual Anat ao clarinete conduz o grupo por uma envolvente melodia recheada de sensualidade e delicadeza. A canção “87 North” tem o trompetista Avishai Cohen, irmão de Anat, como convidado especial (nãoqualquer relação entre ele e o baixista de mesmo nome). Com um ritmo bem marcado pelas sonoridades por baixo e bateria, a saxofonista pode fazer um agradável solo que encontra o trompete sofisticado de Avishai, enquanto o Lindner dá um espetáculo à parte no acompanhamento.

Ao gravar “Say It” de Loesser & McHugh, Anat mostra a sua veia lírica com intensidade em uma versão que pouco remete à belíssima gravação que o quarteto de John Coltrane fez para essa música no álbum Ballads de 1962. Em vez de apostar na introspecção como fez Coltrane no passado, Anat permite mais balanço à canção com solos intensos. Todo o grupo fez um ótimo trabalho com essa canção.

“Homeland” é caracterizada pela melodia suave e agradável com um quê de cena de filme de casais apaixonados. Ok, isso é muito subjetivo, mas de fato os irmãos Cohen conseguem transformar uma canção sem surpresas e linear em algo prazeroso de acompanhar da primeira à última nota.

A intensidade do bop se faz presente na enérgica “As Catch Can”, composta por Gerry Mulligan. O ritmo galopante imposto por Ballard e Street e a fluidez com que Anat sopra seu sax tenor marcam essa ótima versão. Ao ouvir essa faixa fiquei com a impressão que o trompete de Avishai foi gravado em um volume mais baixo, o que pode caracterizar alguma falha na captação do som, ainda assim, nada que comprometa.

O tom melancólico e introspectivo são facilmente reconhecíveis em “Pour Toi”, uma canção traz um solo profundo e cheio de sentimentos de Anat. Soando um pouco como um lamento, um pouco como uma resignação, a música traz em sua estrutura a imagem melancólica do velho estereótipo judeu do sujeito sofrido.

Em absoluto contraste com a faixa anterior, “Bat-El” é uma contagiante canção com influência cubana. A mistura rítmica consegue alcançar um ótimo resultado, que é fruto da precisão de Ballad e Street que conduzem o ritmo como se fossem legítimos filhos da ilha de Castro, de Lindner com o seu dedilhado sofisticado ao piano e da energia harmônica dos irmãos Anat e Avishai, que executam duetos de complementaridade combinando cada agudo solto ao ar.

Esse que é apenas o debut de Anat Cohen se mostra uma obra consistente de relevante padrão estético. Anat não é inovadora em sua maneira de tocar, porém é excelente no que faz, que é extrair melodias limpas com muita beleza. Um álbum para se ouvir muitas vezes.

Faixas de Place & Time:
01. Place & Time [Cohen] 5:40
02. The 7th of March [Cohen] 6:07
03. Veinte Años [
Vera] 4:59
04. 87 North [Cohen] 8:04
05. Say It [Loesser, McHugh] 8:38
06. Homeland [Cohen] 6:39
07. As Catch Can [Mulligan] 3:22
08. Pour Toi [Cohen] 4:39
09. Bat-El [Cohen] 8:21

Ouça um pouco do álbum no site oficial de Anat Cohen.



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