Lançado em outubro de 2008 pela gravadora ObliqSound, o álbum Gilfema + 2, reúne competentes músicos de diferentes nacionalidades como o guitarrista Lionel Loueke, do Benin; o baixista Massimo Biolcati, sueco de criação, mas nascido na Itália; e o baterista Ferenc Nemeth, da Hungria. Esse trio forma o Gilfema, cujo nome incorpora parte dos nomes de seus integrantes: Lionel GILles Loueke, FErenc Nemeth e MAssimo Biolcati. Adicionando as sonoridades de suas origens ao jazz, o grupo convidou mais dois músicos para esse trabalho: a clarinetista israelense Anat Cohen e o clarinetista baixo americano John Ellis. Entre o folk, a world music e o jazz, o Gilfema é um grupo criativo que explora muito bem o talento de seus intérpretes/compositores em novas canções, que se por um lado pode confrontar o gosto jazzístico dos mais puristas, por outro lado desperta o interesse dos fãs um pouco mais receptivos a ritmos africanos e inventivos em geral.
Em "Twins", a primeira faixa do álbum, o tempo marcado pelo baterista Ferenc Nemeth, pelo baixista Massimo Biolcati e pela guitarra rítmica de Lionel Loueke evidenciam a influência da música africana no som do grupo. O canto repetitivo de Loueke no idioma fon, natural do Benin, no início da canção é quase hipnótico, enquanto com sutileza Anat Cohen estabelece uma linha melódica com seu clarinete. A partir da mudança de andamento que é dada à canção, o ritmo ganha mais liberdade e balanço, liberando Loueke para, além de cantar, também solar com sua guitarra, bem como para fazer um rico dueto com o clarinete baixo de John Ellis.
"Question of Perspective" introduz um tema principal executado por Loueke na guitarra e em vocalizações, que ganha a adição de Biolcati no baixo, de Nemeth na bateria e de Ellis no clarinete baixo. A partir desse mote desenvolve-se a melodia tal como se ouve no delicioso solo de Loueke, tocado com muita clareza em uma perspectiva absolutamente linear.
A musicalidade africana volta ao primeiro plano em "Your World", cuja condução do ritmo por Biolcati no baixo e por Nemeth na bateria remetem a um balanço que aproxima o som do grupo a uma sonordade com um quê de reggae. A guitarra de Loueke na maior parte da canção se integra à base rítmica, enquanto o clarinete de Cohen assume a frente da condução melódica em solos ou em bem arranjados duetos com a guitarra. É difícil não se deixar contagiar pelo ritmo e pelo canto de Loueke, que são a cara dessa canção.
Possivelmente "Salomé" com a guitarra com efeito wah-wah de Loueke, o clarinete baixo melodioso de Ellis, o baixo exuberante de Biolcati e a precisão de Nemeth na bateria seja a melhor faixa de todo o álbum. A canção foi construída de modo que os instrumentos de cordas e de sopro assumam em determinado momento o primeiro plano e que se apóiem mutuamente no desenvolvimento do som. O resultado é um primoroso exercício jazzístico de aliar a suavidade de Ellis com a impulsividade de Loueke, que em determinado momento faz sua guitarra soar quase como um teclado, enquanto Biolcati desloca o seu baixo do fundo para o primeiro plano do estúdio de gravação.
O canto de Loueke e a ocarina tocada por Ellis são os principais destaques de "Lonlon Gnin", outra faixa na qual a musicalidade originária da África recebe os principais holofotes. O baixo quase hipnótico de Biolcati e a marcação rítmica precisa de Nemeth formam o plano de fundo para que a canção se desenrole naturalmente.
"Morning Dew" inicia com um ritmo repetitivo marcado por Nemeth, enquanto o clarinete baixo de Ellis toca espaçadamente a mesma nota, aos quais junta-se primeiro o baixo de Biolcati e depois a guitarra de Loueke. A canção tem um desenvolvimento lento, que vai ganhando impulso com a reintrodução do clarinete baixo de Ellis, que vai direcionando a melodia a ser seguida. O tema que ganha vida é bastante bonito e tocado com muita clareza nos solos e nos duetos de guitarra e clarinete.
"Festa" tem um ritmo cheio de balanço que lembra o samba, porém conduzido pelos tom-tons, pela caixa, pelo surdo e pelo chimbal executados por Nemeth, bem como pelo baixo de Biolcati fornecendo a cobertura para o desenvolvimento da melodia pela guitarra e pelo canto de Loueke no idioma fon.
O ritmo acelerado, quase descompassado, introduzido pela bateria de Nemeth em "Cove" induz Ellis a tocar o seu clarinete baixo cada vez mais rápido para estabelecer a segunda parte da canção, que é estruturalmente mais complexa, provocando em um determinado momento um contraponto interessante entre a guitarra de Loueke e o baixo de Biolcati, como se os músicos estabelecessem um desafio mútuo. A sonoridade se constitui em uma sessão de freebop repleta de criatividade e energia. A forma abrupta como a canção é encerrada denuncia um grupo versátil que tem muito a explorar nessa linguagem jazzística. Certamente essa faixa conquista o status de um dos pontos altos do álbum.
"One's Mind's Eye" é uma balada de ritmo suave conduzido por Nemeth repercutindo a caixa de sua bateria com baquetas tipo vassourinha, enquanto Cohen com seu clarinete, Loueke com sua guitarra e Ellis com seu clarinete baixo assumem o papel de desenvolver a melodia. A medida que a canção começa a crescer em intensidade e Nemeth passa fazer uso maior dos pratos de seu instrumento, o baixo de Biolcati também vai ganhando mais espaço e se destacando dentro da obra. O destaque maior, porém, fica para a forma como a melodia é trabalhada em função do timbre diferenciado dos sopros e das seis cordas.
A linguagem do bop volta a ser falada pelo grupo em "Master of the Obvious", uma canção na qual o clarinete baixo de Ellis e o clarinete de Cohen travam um diálogo cheio de balanço, enquanto o baixo de Biolcati e a bateria de Nemeth proporcionam o ritmo swingado necessário para a harmonia da canção. A introdução da guitarra com wah-wah de Loueke ganha o primeiro plano na execução dessa faixa, uma vez que a sua entrada altera o dinamismo do trabalho e produz um efeito positivo refletido na força que a canção ganha perto de seu final.
O trio Gilfema tem recebido ótimas críticas nas publicações especializadas em jazz, mesmo se tratando de um projeto paralelo, que infelizmente não deverá ter continuidade, uma vez que a carreira solo de Lionel Loueke está em seu melhor momento e tanto o baixista quanto o baterista integram o grupo do guitarrista. O mérito do Gilfema é dar vazão às composições de Massimo Biolcati e de Ferenc Nemeth, afinal o grupo de Loueke toca apenas composições próprias deste, que foi escolhido como "Estrela em Ascensão (Rising Star)" na categoria guitarrista na premiação de 2008 da revista DownBeat. A adição dos sopros ao trio original ocasionou mais versatilidade à sonoridade do grupo, uma vez que a guitarra ganhou mais opções para trabalhar em belos e agradáveis duetos. Por essas razões, Gilfema + 2 é um álbum altamente recomendável.
Todos os músicos que participaram do álbum: Lionel Loueke: guitarra, vocais; Massimo Biolcati: baixo Ferenc Nemeth: bateria Anat Cohen: clarinete John Ellis: clarinete baixo, ocarina
Faixas de Gilfema + 2: 01. Twins [Loueke] 5:20 02. Question of Perspective [Nemeth] 4:13 03. Your World [Loueke] 5:36 04. Salomé [Biolcati] 6:04 05. Lonlon Gnin [Loueke] 3:45 06. Morning Dew [Nemeth] 6:28 07. Festa [Nemeth] 4:23 08. Cove [Loueke] 5:22 09. One's Mind's Eye [Biolcati] 7:19 10. Master of the Obvious [Biolcati] 4:13
Veja o vídeo do Gilfema tocando "Question of Perspective":
Nascidaem Tel Aviv, Israel, a saxofonistatenor, soprano e clarinetista Anat Cohen é figuraconhecida e celebrada na cena jazzística de Nova York desde 1999. Entusiasta da músicabrasileira, colombiana e afro-cubana, ela estudou e tocou comváriosmúsicossul-americanos e conseguiu integrarcomgraça e naturalidade essas influênciasemseujazz. Emseuprimeiro CD, Place & Time, lançado em 2005 pela gravadora Anzic, Anat Cohen já demonstra seu amadurecimento musical e qualidades artísticas apuradas.
“Place & Time”, a cançãoque dá nome ao álbum, é a faixa de abertura do CD, que tem suabelamelodiamuitobem delineada peloelegantesopro de Anat Cohen emseusaxtenor, enquantomuitobem acompanhada pelonãomenosdistinto e delicadopianista Jason Lindner. Ótimaescolhaparafaixa de abertura.
“The 7th of March” encontralugarem uma belafusão de jazzcomtango e percussão e latinidade! O melhor dessa mistura é quetudo soa muitobem e de maneiramuitoharmoniosa. O baixobem marcado de Ben Street casacertocom a bateria de Jeff Ballard parajuntos estabelecerem a seção rítmica que engrandece o piano de Lindner e ganha apurado sensoestéticograças a Anat.
A fusão de estilos musicais continua no belotango “Veinte Años” compostopela cubana Maria Teresa Vera, no qual Anat ao clarinete conduz o grupopor uma envolvente melodia recheada de sensualidade e delicadeza. A canção “87 North” tem o trompetista Avishai Cohen, irmão de Anat, comoconvidadoespecial (não há qualquerrelaçãoentreele e o baixista de mesmonome). Comumritmobem marcado pelas sonoridades porbaixo e bateria, a saxofonista pode fazerumagradávelsoloqueencontra o trompete sofisticado de Avishai, enquanto o Lindner dá umespetáculo à parte no acompanhamento.
Ao gravar “Say It” de Loesser & McHugh, Anat mostra a suaveialíricacomintensidadeem uma versãoquepouco remete à belíssima gravaçãoque o quarteto de John Coltrane fez para essa música no álbumBallads de 1962. Emvez de apostar na introspecçãocomo fez Coltrane no passado, Anat permite maisbalanço à cançãocomsolosintensos. Todo o grupo fez umótimotrabalhocom essa canção.
“Homeland” é caracterizada pelamelodiasuave e agradávelcomumquê de cena de filme de casais apaixonados. Ok, isso é muitosubjetivo, mas de fato os irmãos Cohen conseguem transformar uma cançãosemsurpresas e linearemalgoprazeroso de acompanhar da primeira à últimanota.
A intensidade do bop se faz presente na enérgica “As Catch Can”, compostapor Gerry Mulligan. O ritmogalopanteimpostopor Ballard e Street e a fluidez comque Anat sopraseusaxtenor marcam essa ótimaversão. Ao ouvir essa faixa fiquei com a impressãoque o trompete de Avishai foi gravado emumvolumemaisbaixo, o que pode caracterizar alguma falha na captação do som, aindaassim, nadaque comprometa.
O tom melancólico e introspectivosão facilmente reconhecíveis em “Pour Toi”, uma canção traz umsoloprofundo e cheio de sentimentos de Anat. Soando umpoucocomoumlamento, umpoucocomo uma resignação, a música traz emsuaestrutura a imagem melancólica do velhoestereótipojudeu do sujeito sofrido.
Emabsolutocontrastecom a faixaanterior, “Bat-El” é uma contagiantecançãocominfluência cubana. A mistura rítmica consegue alcançarumótimoresultado, que é fruto da precisão de Ballad e Street que conduzem o ritmocomo se fossem legítimosfilhos da ilha de Castro, de Lindner com o seu dedilhado sofisticado ao piano e da energiaharmônica dos irmãos Anat e Avishai, que executam duetos de complementaridade combinando cadaagudo solto ao ar.
Esseque é apenas o debut de Anat Cohen já se mostra uma obra consistente de relevantepadrãoestético. Anat não é inovadora emsuamaneira de tocar, porém é excelente no que faz, que é extrairmelodiaslimpascommuitabeleza. Umálbumpara se ouvir muitas vezes.
Faixas de Place & Time: 01. Place & Time [Cohen] 5:40 02. The 7th of March [Cohen] 6:07 03. Veinte Años [Vera] 4:59 04. 87 North [Cohen] 8:04 05. Say It [Loesser, McHugh] 8:38 06. Homeland [Cohen] 6:39 07. As Catch Can [Mulligan] 3:22 08. Pour Toi [Cohen] 4:39 09. Bat-El [Cohen] 8:21
Natural de Porto Alegre, estou desde 2005 em Florianópolis. Cursei Licenciatura em Letras (Inglês/Português) por quatro anos na UFRGS. Foi nessa época que surgiu o meu interesse por jazz. Posteriormente abandonei o curso para ingressar na faculdade de Psicologia na UFSC. Meu amor pela música é intenso, bem como minha curiosidade pelo novo. Depois de muito ouvir "dinossauros" como Mingus, Coltrane, Miles, Parker, Monk e outros, quis descobrir novos talentos. São algumas dessas descobertas que compartilho neste blog.